O mais pobre, o mais simples

23/12/2023

Eis que chega o Natal!

Como o simbolismo da data propõe, obra do talvez ou do quem sabe, como que por milagre ou passe de mágica, assim, de repente, nossos corações tornam-se mais delicados, sensíveis às boas coisas da vida – e aos bons sentimentos para com o real sentido de nossa existência.

Os olhos, por tantas vezes incapazes de enxergar o outro, parecem desanuviados, e finalmente veem…

Veem que somos todos iguais, e de que nada valem, em dimensão verdadeira, as diferenças que nos separam. Dinheiro, Poder, Luxo… De nada valem, insisto, em dimensão verdadeira!

Ali, entregue à própria sorte, pode-se ver um homem desvalido, uma mulher sem nada para dar de comer ao filho, uma criança que suplica por um resto de comida: o pedaço do sanduíche, um pouco do sorvete, um copo do refrigerante. Quem sabe um brinquedo… um chinelo, uma camisa, um calção…

Mas nossos olhos, disse o poeta, são pequenos para ver!

Eles estão por toda parte: nos sinais da esquina, nos bancos de praça, nas ruas, nas favelas… E não tivemos olhos para ver!

Mas eis que chega o Natal, e com ele uma nova chance de repensar nossas vidas, de abrir os braços para os que, sendo nossos irmãos, carecem tanto da nossa atenção. E lhes negamos, por comodidade ou perversa indiferença… lhes negamos!

E pensar que é tão pouco o que pedem, tão pequeno o pedaço de pão, o prato de comida com que se pode matar a fome alheia – ou a manifestação de carinho para aliviar a dor de alguém. A ajuda para o remédio com que se pode tratar a doença… tão pouco… a roupa decente que cobrirá o corpo quase nu! É tão pouco!

Mas foi preciso que chegasse o Natal para fazer cair a ficha, e nos fazer voltar a ver para além dos muros de nossa casa e do nosso egoísmo!

E, no entanto, o Natal “é sempre!” Ontem e agora, assim como será no amanhã!

É Natal quando nos tornamos capazes de sentir o sofrimento alheio e não medir esforços para amenizá-lo. É Natal quando nos indignamos com a injustiça, a exploração, o domínio de um sobre o outro. É Natal quando estendemos a mão a quem precisa de nossa ajuda, quando pagamos o salário digno a quem nos serve, quando repartimos, quando “dividimos”… É Natal quando “diminuímos” a miséria alheia na proporção de nossas possibilidades… Quando nos “somamos” a quem está sozinho e já perdeu a esperança!

É Natal, enfim, quando “multiplicamos”, não os bens materiais, mas os bons sentimentos dentro de nós, a semente da solidariedade, o amor ao próximo, a crença de que é possível um mundo menos desigual e mais humano, mais livre, mais fraterno, em sua dimensão maior e mais profunda!

É Natal quando aplacamos o ódio! Quando perdoamos!

Eis que chega o Natal! Aquele que é, em sua essência, menos festa e mais fraternidade; menos luzes de decoração e mais compreensão; menos enfeites na parede, menos avelãs e figos, frutas e doces cristalizados à mesa…

Pois que é Natal, verdadeiramente, quando nos alimentamos de amor no coração!

Que, neste Natal, possamos de uma vez por todas, com utopia ou sem ela, compreender o que realmente importa, muito para além das árvores enevoadas artificialmente, das luzes piscantes, das bolinhas coloridas a nos encher os olhos – das crianças e dos homens… Muito mais que a roupa cara, o sapato novo, a joia rara…

É Natal!

Nasce um menino! O mais pobre, o mais simples! Nasce o Menino-Jesus!

E sua morada, um dia, que não sabemos quando, haverá de ser o coração do homem!

 

P.S. Aos leitores e leitoras, gratidão! E votos de boas-festas!

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *