Humano, demasiado humano*

22/03/2025

A vida entre livros leva-nos a compreender pensamentos “antípodas”, e a admirá-los, na contradição de desencontrados saberes. Mais que isso, numa espécie de personalização múltipla, de desdobramentos anímicos, a enxergar as coisas como que por espelho de mil faces – e mil encantos. Pessoa, o poeta português, deu-nos aula de sensibilidade estética ao multiplicar-se em muitos seres, trabalhados à perfeição no fenômeno inigualável da heteronomia. Aqui, como Alberto Caeiro, valorizamos as sensações e nos tornamos pagãos; ali, a exemplo de Ricardo Reis, incorremos em classicismos e formalidades eruditas; mais adiante, no espaço indefinível de um ‘acolá’, somos tomados de angústia, perplexos diante de um mundo que nos seduz e escraviza.

Por volta de 1972, contava eu uns 16 anos, descobri Nietzsche. Obra do talvez ou do quem sabe, e caiu-me às mãos o Humano, demasiado humano. Como vivesse uma fase profundamente mística, participando de grupos de jovens religiosos, lembro que ler o filósofo alemão foi algo a um tempo desafiador e desconcertante. Afinal, tratava-se do pensador que escrevera O anticristo, e que professara a morte de Deus.

Mas, lembro, não conseguia me desvencilhar daqueles aforismos carregados de lucidez e sabedoria. Era uma experiência maravilhosa, incomunicável, profundamente sedutora conhecer um intelectual que se assumia humano, demasiado humano. Com um defeito, apenas, contrapor-se ao Cristianismo, que, àquela altura dos meus dias, era para mim um referencial. Não falo da referencialidade meramente religiosa, igrejeira. Não, víamos (e estudávamos o Cristianismo) mais como uma filosofia, uma doutrina baseada na alegria de viver, partilhar, dividir tanto quanto possível o milagre do amor. Talvez estivesse aí a razão de ser algo deslumbrante o fato de ler Nietzsche, de conhecer a luz ofuscante de sua filosofia e a motivação de saber mais e mais de sua vida, marcada por tantos conflitos e tantos dramas.

Hoje, quando escrevo estas linhas, e a leitura da obra do autor de Assim falou Zaratustra é coisa mais amadurecida do ponto de vista intelectual, causa-me um tipo indefinível de prazer saber que Nietzsche não é tão anticristão assim. Deixemos de lado a ousada discussão.

O meu gosto pela filosofia nasceu, contudo, desse primeiro contato com o pensamento nietzscheano, e com a sua poesia, claro, pela qual revelava a sua inquietante busca de Deus: “Quero conhecer-Te, Desconhecido,/Tu, que te agarras ao fundo de minha alma/que atravessas minha vida estranho/e intocável como a tempestade./Quero conhecer-Te, ainda que para servir-Te.”

Por força de Nietzsche, curioso, é que voltei no tempo, e fui a Sócrates, Platão, Aristóteles, percorri os caminhos que percorreram os Cínicos, os Céticos, os Epicuristas, os Estoicos… Atrevido, na sede insaciável de conhecer, cheguei a Hegel, Kant, Schopenhauer, Marx…

Retornei a Nietzsche, de quem leria O nascimento da tragédia, Além do bem e do mal, A gaia ciência, Ecce homo etc. Assim, fortalecido na minha fé, na crença de que nem tudo resume-se ao que está aqui, nessa passagem repleta de “eternos retornos”, por ignorância ou seja lá o que for, tenho vivido a vida, com Nietzsche e com Deus, num mundo, muitas vezes, sem Deus e sem sentido.

*Título do primeiro livro de Friedrich Nietzsche logo que rompeu com Richard Wagner e Schopenhauer. Escrito em aforismos, a obra aborda variados temas, abrangendo questões de religião, metafísica, política, arte e literatura. Publicado em 1878, pretende-se “um livro para espíritos livres”.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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