Prece do Brasileiro

04/07/2026

Eis que chegamos ao segundo jogo eliminatório. O adversário, sabe-se, pelo menos em termos estatísticos, é osso duríssimo de roer. Nas quatro vezes que enfrentamos a Noruega, perdemos duas e empatamos duas. Como se vê, nada que nos sugira qualquer favoritismo, sobremaneira se levarmos em consideração que a seleção norueguesa, bem na contramão do que ocorreu aos brasileiros, só evoluiu nesses últimos anos. Tem hoje uma equipe sólida defensivamente falando, um meio campo disciplinado do ponto de vista tático e um ataque que assusta qualquer adversário, leve-se em conta ter à frente o “gigante” Erling Haaland, um dos destaques nesta Copa do Mundo.

É verdade que, do jogo de estreia até aqui, a seleção brasileira cresceu em rendimento: há melhor definição tática e objetividade coletiva, e dependemos menos da genialidade de Vini Jr., que, por sinal, fez contra o Japão uma apresentação sofrível. Menos mal, pois que, na perspectiva do grupo, o desempenho foi melhor, em que pese o erro crasso da insistente troca de passes na “horizontal”, de que resultou, por exemplo, o gol da equipe japonesa na segunda-feira.

Para os mais realistas, entre os quais me coloco, há uma história que preocupa (e muito): desde 2002, quando conquistamos a quinta estrela na copa da Coreia/Japão, saímos no quinto jogo: em 2006, na Alemanha, perdemos para a França por 1 a 0; em 2010, na África do Sul, para a Holanda por 2 a 1; em 2014, é verdade que passamos pela Colômbia, 2 a 1, mas veio a Alemanha, no Mineirão, e a humilhação a que me recuso dar números.

Mas, se o leitor me aguentou até esta altura do texto, não desista da leitura. Estamos diante da mais irrecusável das realidades, o que conta a nosso favor: é Brasil, e tudo se pode esperar de uma seleção com a história da nossa seleção, inclusive surpreender chegando às quartas de final de uma Copa do Mundo em que a Argentina e a França, sobretudo, sobressaem como as maiores favoritas. É ter olhos e ver: no item competividade (empenho, capacidade de superação, senso de oportunismo etc.), e contando com um supercraque como Messi em perfeitas condições físicas e técnicas, a Argentina pode chegar ao tetra, embora o melhor time dentre os grandes participantes seja, de longe, a França de Kylian Mbappé, Debélé e Michael Olise.

Em suma: se, aos olhos deste escriba (que se iniciou no jornalismo escrevendo sobre futebol, no longínquo 1974), a atual seleção figura entre as mais fracas de nossa história em copas do mundo, em que pese contar entre os convocados com jogadores de bom nível, não é, ainda, jogo jogado: embora improvável, o hexa já esteve mais distante.

Alardear otimismo, ainda que seja um gesto de simbolismo patriótico que condiz com nossas melhores tradições no esporte, bem na linha do que faz a grande imprensa, sabe-se lá com que interesse nos dias atuais, é desconsiderar os referenciais da lógica, mesmo quando a lógica nem sempre prepondera, como no futebol.

Fico por aqui. Como a relembrar Drummond, nosso poeta maior, vem-me à mente sua prece em 70: “Meu Jesus Cristinho (…), dê um jeito, meu velho, e faça com que essa taça, sem milagre ou com ele, nos pertença. (…) Do contrário ficará a Nação tão malincônica, tão roubada em seu sonho e seu ardor, que nem sei como feche a minha crônica”.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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