Isso é hora de chegar em casa, seu corno?

27/06/2025

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Na cidade de Exu, no Pernambuco, no início do século XX, seu Januária, com a sua sanfona, animava as festas nos quintais daquelas redondezas. Para ajudá-lo, ele levava seu filho Luiz Gonzaga. Seu Januário começava tocando e quando cansava, Luiz assumia o posto. Gonzaga foi juntando um dinheirinho, comprou uma sanfona e foi tocar sozinho; ficou independente. Mas o dinheiro que ele ganhava, ficava todo para a sua mãe, Dona Santana, que ia lhe dando aos pouquinhos.

Com uma sanfona e com dinheiro, Luiz danou-se a namorar e, logo, decidiu casar. Acontece que o pai da moça não estava muito de acordo e Luiz tomou a errada decisão de ir se ter com o quase futuro sogro:

– Seu Raimundo, é verdade que o senhor anda me descompondo por aí, dizendo que eu sou um sanfoneirozinho sem futuro e que eu não posso ser seu genro?

– Isso é conversa do povo, Gonzaga!

Luiz pensava que tinha resolvido o problema, mas seu Raimundo foi fazer queixa de Luiz na casa de seus pais. Resultado: Luiz levou uma sonora surra da mãe e outra do pai, que nunca tinha lhe batido. Desgostoso, ele decide fugir de casa e assim o faz.

Primeiro ele vai para Fortaleza e ingressa nas Forças Armadas cujo objetivo, segundo o próprio Lua, era se alimentar. Passou quase 9 anos como soldado e nunca subiu de patente. Depois de sua baixa nas Forças Armadas ele vai para o Rio de Janeiro, compra uma sanfona e vai tocar nos bares da cidade e acaba agradando o público carioca. Por volta de 1941, Luiz Gonzaga fecha o seu primeiro contrato com a gravadora RCA Vitor, vira um sucesso estrondoso em todo o Brasil e, além da batida do zabumba, bate também, no peito de Luiz Gonzaga, a saudade e, 16 anos após sair de casa, ele decide ir visitar o velho Januário de dona Santana.

Era madrugada quando ele chega no Exu, na mesma casa da qual partira.

Parado, Luiz fica ali frente a frente à janela e grita:

– Ô de casa! Ô de casa!

Ninguém responde e, então Luiz se lembra do antigo prefixo de acolhida:

– Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Januário responde:

– Para sempre seja Deus louvado!

– Seu Januário?

– Sim, senhor!

– Estou vindo do Rio de Janeiro e trago notícias do seu filho Luiz Gonzaga. Quando vier daí de dentro, traga um pouco d’água pra eu que eu tô morrendo de sede.

Luiz fica olhando pela greta da janela, percebe quando o pai acende o candeeiro, pega a água no pote e vem caminhando lentamente pelo corredor da casa. Seu Januário abre a janela, fica frente a frente a Luiz, levanta o candeeiro acima da cabeça para ver o seu rosto e pergunta:

– Quem é o senhor?

– Luiz Gonzaga, seu filho!

Januário então responde:

– Oxente! Isso é hora de chegar em casa, seu corno! Santana, Gonzaga chegou!

Naquela noite ninguém dormiu mais, a casa se encheu de gente e a festa se arrastou até o amanhecer.

Naquele dia, o Nordeste não recebeu apenas um artista que estava voltando para casa. Recebeu um pedaço de si que havia saído, mas nunca partira de verdade. Luiz Gonzaga voltava para onde nunca deixou de pertencer. A velha sanfona, assim como todos que ali estava, chorava e sorria ao mesmo tempo, como se também estivesse matando a saudade de casa.

Viva Luiz Gonzaga!

Viva o Nordeste!

Bom fim de semana!

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