Lira dos 20 Anos e a Filosofia Socrática

05/09/2026

 

 

“Meu pai não aprova o que eu faço, tampouco eu aprovo o filho que ele fez.”

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Há frases que parecem nascer de uma conversa íntima, talvez de uma mesa de jantar, de uma adolescência inquieta ou de uma casa onde duas gerações se olham sem conseguir compreender inteiramente uma à outra. Mas algumas frases, quando encontram a poesia, deixam de pertencer apenas a quem as pronunciou. A palavra, de fato, é de todos nós.

A frase acima, atribuída a Belchior, que está na canção Lira dos 20 anos, carrega uma espécie de confissão e, ao mesmo tempo, uma declaração de independência. Há nela o filho que não quer repetir o pai (ou, talvez, esteja fazendo exatamente isso), mas há também o pai que talvez não consiga reconhecer no filho aquilo que um dia ele próprio foi.

E é justamente aí que a frase encontra a antiga inscrição grega que atravessou séculos: “Conhece-te a ti mesmo.”

Inscrita no Templo de Apolo em Delfos e disseminada por Sócrates, o pensador, ao refletir sobre o conhecimento, a virtude e a vida humana, compreendeu que não há uma existência verdadeiramente livre quando o homem permanece estranho a si próprio. Conhecer o mundo é uma aventura extraordinária. Mas conhecer a si mesmo é uma tarefa ainda mais difícil.

Há algo de profundamente filosófico naquela frase de Belchior. O filho diz que o pai não aprova aquilo que ele faz. E, imediatamente, devolve: “tampouco eu aprovo o filho que ele fez.” É uma ruptura, mas não é apenas uma ruptura com o pai. É uma tentativa de romper com aquilo que, dentro de nós, foi herdado sem que tivéssemos escolhido.

Todos carregamos alguma coisa de nossos pais, de nossa família, de nossa época, de nossa cidade, de nossa classe social, de nossa cultura. Antes mesmo de formularmos nossas próprias ideias, já recebemos um mundo pronto. Recebemos crenças, medos, preconceitos, valores, costumes e certezas. Nascemos dentro de uma história que não escolhemos. Ou estou errado?

A liberdade começa quando perguntamos se queremos continuar vivendo exatamente dentro dela. É nesse ponto que o “conhece-te a ti mesmo” deixa de ser apenas uma recomendação filosófica e passa a adquirir uma dimensão existencial e política, uma vez que um homem que não conhece a si mesmo pode facilmente ser conduzido pelos outros. Quem não examina suas próprias convicções pode transformar opinião alheia em verdade. Quem não reconhece seus próprios medos pode confundi-los com princípios. Quem não percebe suas próprias contradições pode passar a vida inteira combatendo no outro aquilo que não consegue enxergar em si.

E uma sociedade formada por indivíduos incapazes de questionar a si mesmos torna-se terreno fértil para toda espécie de tutela e há uma dimensão política nessa descoberta.

Ser livre não significa simplesmente poder escolher entre algumas opções que nos são apresentadas. Liberdade é também compreender por que escolhemos aquilo que escolhemos dentro de uma concepção epistemológica. É perguntar de onde vieram nossas convicções e por que acreditamos nisso. Quais interesses sustentam aquilo que chamamos de verdade e quantas de nossas certezas são realmente nossas.

Talvez o primeiro ato de liberdade seja justamente esse instante silencioso em que o indivíduo interrompe o ruído do mundo e pergunta a si mesmo: “Quem sou eu?”

A pergunta parece simples, mas não é. No entanto a filosofia grega e a inquietação poética de Belchior podem nos dar alguma resposta.

De um lado, a filosofia antiga nos convida ao conhecimento de nós mesmos, e do outro a canção moderna revela o drama de quem tenta construir uma identidade própria diante da autoridade paterna, diante da tradição e diante do mundo.

O pai representa, nesse sentido, muito mais do que uma figura familiar. Ele pode representar a tradição, aquilo que veio antes e que nos diz “sempre foi assim.”

E o filho representa a pergunta “preciso continuar sendo assim?”

Mas conhecer-se não significa rejeitar tudo aquilo que recebemos. Conhecer-se é distinguir. É separar aquilo que escolhemos daquilo que simplesmente herdamos. É reconhecer as nossas raízes sem permitir que elas se transformem em correntes. E essa é uma das formas mais difíceis de liberdade e talvez seja também uma das mais bonitas porque o conhecimento de si não se exaure no indivíduo. Ele transborda para a sociedade.

Um homem que aprende a questionar as próprias certezas torna-se menos vulnerável ao fanatismo. Um cidadão que compreende os mecanismos que moldam suas escolhas torna-se menos manipulável. Uma sociedade composta por pessoas capazes de pensar criticamente sobre si mesma torna-se mais difícil de dominar.

A liberdade política, portanto, começa muito antes das urnas, dos políticos e das instituições. Ela começa dentro da consciência.

Antes de libertar-se de um governo, talvez seja necessário libertar-se das ideias que nos impedem de pensar; antes de questionar o poder que está fora de nós, precisamos perguntar quais poderes já foram internalizados por nós mesmos; e talvez seja essa a grande provocação que une a filosofia e a música Lira dos 20 Anos: ninguém é plenamente livre enquanto não for capaz de reconhecer as forças que o fazem ser aquilo que é.

Belchior compreendia que a juventude precisava enfrentar o mundo para descobrir seu lugar nele. A filosofia antiga, por sua vez, já havia percebido que a maior viagem humana não acontece necessariamente para fora, mas para dentro. Conhecer a si mesmo é descobrir nossas contradições, nossas limitações, nossas heranças e nossas possibilidades.

E talvez seja justamente aí que a liberdade se descortine pra gente de verdade. Não quando finalmente sabemos todas as respostas, mas quando adquirimos coragem para fazer as perguntas certas.

Conhece-te a ti mesmo. E, depois de te conheceres, talvez tenhas condições de escolher, com alguma liberdade, quem desejas ser.

Bom fim de semana e até a próxima!

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