A luz que se acende na escuridão

02/08/2025

A reflexão existencialista sempre esteve comigo, como uma sombra que se estendia por meus dias. A pergunta que não se calava era simples, mas profunda: “Qual é o sentido de tudo isso?” Um tipo de vazio, uma sensação de flutuar sem direção, tomava conta de mim sempre que a vida se abria diante de uma nova possibilidade. Cada escolha, uma bifurcação. Cada caminho, uma incerteza.

Na busca incessante por um significado, muitas vezes nos deparamos com o abismo do ceticismo. O questionamento existe, e, por vezes, a dúvida parece ter o poder de nos consumir. A filosofia existencialista, com figuras como Sartre e Camus, ensinou-me a duras penas que somos condenados à liberdade. Estamos sós nesse vasto universo, sem um guia definitivo, sem uma ordem imposta, sem um propósito dado a priori. Isso poderia ser uma condenação, mas também, ao mesmo tempo, uma libertação: a de sermos os arquitetos de nossos próprios destinos.

Mas há algo curioso em todo esse vazio que nos desafia. Mesmo na frieza da razão pura e do questionamento profundo, algo nos resgata da desesperança. E é aí que a fé, com todo o seu peso e suavidade, entra em cena. Não a fé cega, mas a fé que questiona, que busca, que entende a necessidade de transcendência.

A filosofia cristã, com sua cosmovisão de amor e redenção, oferece uma resposta que ressoa não apenas nas escrituras, mas também nas vozes dos pensadores ocidentais. Não é uma fuga da razão, mas uma expansão dela. Santo Agostinho, por exemplo, ao falar sobre o desejo humano por Deus, nos lembra que a verdadeira paz está na entrega. “Nosso coração está inquieto até descansar em Ti”, diz ele. É como se, diante do vazio existencial, o coração humano soubesse, de alguma forma, que a liberdade não está apenas na autonomia individual, mas na comunhão com algo maior que nós mesmos.

No entanto, mesmo os pensadores ateus não escapam dessa busca por sentido. Como disse Camus, o homem se vê diante do absurdo da vida, mas ainda assim deve escolher agir, criar, buscar um significado, mesmo que esse seja efêmero e fugaz. A filosofia ocidental, por mais que se distancie das respostas religiosas, acaba por caminhar lado a lado com os princípios cristãos, no que diz respeito à busca por uma ética universal, pela compaixão e pela dignidade humana.

O ateu que nega a transcendência também enfrenta o vazio existencial. Mas, em sua maneira, ele busca preenchê-lo com algo mais terreno: a luta por justiça, pela construção de um mundo mais humano, pela busca de um significado que, embora sem uma garantia última, ainda assim oferece consolo na ação. Nesse ponto, a filosofia cristã e a filosofia ateísta não estão tão distantes: ambas compartilham o desejo de uma vida plena, de uma existência que não seja apenas uma sucessão de eventos aleatórios.

Entre o abismo do existencialismo e a luz da fé cristã, há uma estrada a ser trilhada. Não uma estrada de respostas fáceis, mas de um diálogo constante, de um esforço diário para encontrar significado, mesmo que ele se revele fugaz ou inatingível.

A fé, nesse sentido, não é uma solução definitiva para o vazio da existência, mas uma luz que se acende na escuridão da dúvida. E, para aqueles que não compartilham dessa fé, talvez a filosofia ocidental, em suas diversas formas, seja igualmente uma chama que ilumina o caminho da humanidade em busca de um sentido. E, ao fim, talvez esse seja o verdadeiro sentido: amar, criar, questionar, e, acima de tudo, continuar.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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