Em meio a uma noite chuvosa no decadente Bar Saturno, os velhos amigos Augusto e Baltazar discutem apaixonadamente as obras de Edgar Allan Poe. Enquanto Augusto defende “O Gato Preto” como a representação mais cruel e humana do horror psicológico, Baltazar sustenta que “O Corvo” é superior por retratar a dor inevitável e a impossibilidade de escapar da tristeza. Entre copos de cachaça, fumaça e silêncio inquietante, a conversa revela não apenas a admiração pelos contos de Poe, mas também os próprios fantasmas interiores dos dois homens.
Continuação:
Seus olhos pareciam mais escuros agora.
— O homem do poema já está condenado antes da ave entrar. Ele lê livros antigos para esquecer Lenora. Tenta anestesiar o sofrimento com racionalidade. Então surge o corvo.
Fez uma pausa.
— E ele fala apenas uma palavra.
— “Nunca mais” — murmurou Augusto.
— Exato. E isso basta.
Baltazar inclinou-se lentamente.
— Percebe a crueldade? O pássaro não argumenta. Não consola. Não ameaça. Apenas repete. E justamente por isso o narrador projeta na ave toda a sua loucura.
O trovão ribombou tão forte que os copos vibraram. Baltazar continuou:
— A estrutura do poema é uma espiral psicológica. Cada repetição destrói um pouco mais a sanidade do homem. No início ele brinca com o corvo. Depois começa a fazer perguntas sinceras. Depois desesperadas. Até que finalmente pergunta se verá Lenora novamente.
Seus dedos tremiam agora.
— E a resposta vem. “Nunca mais.” Augusto permaneceu calado.
— Aquilo — disse Baltazar — é o som da eternidade.
A luz do bar piscou. Uma vez. Duas. Depois estabilizou. O garçom desaparecera. Nenhum dos dois percebeu imediatamente.
Augusto coçou a barba.
— Ainda prefiro “O Gato Preto”.
Baltazar sorriu com estranha tristeza.
— Claro que prefere.
— Porque é humano.
— Não — respondeu Baltazar. — Porque você tem medo de enlouquecer.
Augusto estreitou os olhos.
— E você prefere “O Corvo” porque teme o luto.
Baltazar não respondeu.
Por alguns segundos, ouviu-se apenas a chuva.
Então Augusto franziu a testa.
— Aliás… falando nisso… você nunca me contou exatamente como sua esposa morreu.
Baltazar ergueu lentamente os olhos. E naquele instante algo mudou no ambiente.
O bar pareceu mais frio. Mais vazio. Mais distante.
— Ela não morreu — disse ele.
Augusto soltou uma risada nervosa.
— Ora, você mesmo disse no enterro— Então parou.
Seu rosto perdeu a cor.
— Espera…
Baltazar o observava sem piscar. Augusto começou a respirar depressa.
— O enterro…
As memórias vinham confusas. Chuva. Caixão fechado. Poucas pessoas.
Uma sensação terrível de náusea. Mas agora… agora percebia algo impossível.
Nunca vira o corpo. Nunca ouvira ninguém além de Baltazar mencionar a doença.
E, sobretudo… O enterro acontecera há quinze anos. Quinze anos. Com mãos trêmulas, Augusto ergueu os olhos.
— Baltazar…
O amigo permaneceu imóvel. Pálido demais. Silencioso demais. Então Augusto notou. Não havia reflexo dele na vidraça atrás da mesa. O trovão explodiu. As luzes se apagaram. E, na escuridão absoluta do bar, uma voz rouca sussurrou perto de seu ouvido:
— Nunca mais.
Quando as luzes voltaram, Augusto estava sozinho. A garrafa diante dele permanecia cheia. Dois copos. Mas apenas um continha marcas de uso. O garçom reapareceu atrás do balcão, como se jamais tivesse saído dali. Augusto levantou-se bruscamente.
— O homem que estava aqui comigo… onde ele foi?
O garçom o encarou com expressão estranha.
— O senhor chegou sozinho.
— Não… Baltazar… meu amigo…
O velho limpou lentamente o copo. Depois disse, quase num murmúrio:
— Baltazar de Alencar?
Augusto assentiu. O garçom empalideceu.
— Senhor… Baltazar morreu aqui nesse bar.
A chuva parecia agora um coro de sussurros contra os vidros.
— Há quinze anos. Exatamente nesta noite. Dizem que falava sozinho… discutindo sobre Edgar Allan Poe antes de cair morto na mesa do canto.
Augusto sentiu o sangue fugir do rosto.
— Não…
O garçom apontou lentamente para a parede atrás dele. Ali havia um retrato antigo e amarelado. Nele, um homem magro sorria discretamente para a câmera. Baltazar. Debaixo da fotografia, uma frase escrita à mão: “Tomado pelo delírio e pela saudade. Repetia sem parar a mesma palavra.” Augusto aproximou-se lentamente. E então leu a última linha. “Nunca mais.”
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História


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