A cadeira vazia da liberdade

09/08/2025

Era uma manhã qualquer, daquelas em que o sol se espreguiça entre as janelas e o rádio da cozinha repete notícias que já não surpreendem mais. Mas ali, entre o cheiro de café e o ranger da cadeira de balanço do avô, havia algo que resistia ao tempo: uma ideia. Melhor dizendo, um princípio — ou talvez, vários. Liberdade individual, propriedade privada, conservadorismo. Todos sentados à mesa, como velhos amigos que teimam em não abandonar a conversa.

Enquanto o país se vê mergulhado em disputas ideológicas, muita gente esquece que a liberdade não é um favor do Estado — é uma conquista do indivíduo. E que a propriedade não é apenas o terreno ou a casa, mas a extensão da própria dignidade. Quem planta, colhe. Quem constrói, deve manter o que construiu. Parece simples, mas há quem confunda igualdade com desapropriação, e justiça com tutela do Estado.

Edmund Burke, o velho pensador inglês, dizia que a sociedade é um contrato entre os vivos, os mortos e os que ainda não nasceram. E é essa visão de continuidade que falta em muitos debates políticos por aqui. O conservadorismo que ele propôs não é o medo do novo, mas a prudência diante da pressa. É a ideia de que antes de destruir um pilar, vale a pena perguntar: “por que ele foi colocado aqui?”

No Brasil, a direita política ainda luta para se desvencilhar de caricaturas mal desenhadas. É vista por muitos como elitista, insensível, antiquada. Mas a verdade é que ela oferece algo que toda democracia precisa: o freio. O freio contra os excessos do Estado, o freio contra a imposição do pensamento único, o freio contra a erosão dos valores que sustentam uma nação livre.

Quando se fala em direita, fala-se também em responsabilidade pessoal, na importância da família, na liberdade de empreender, na defesa de instituições sólidas e na limitação do poder estatal. Em tempos de populismos e promessas fáceis, essas ideias podem soar duras — mas talvez sejam exatamente o que nos falta.

A liberdade individual não é negociável, mas constantemente ameaçada. E é aí que o conservador precisa se levantar, não para gritar ou impor, mas para lembrar: há um preço em ignorar a história. Há um perigo em trocar segurança por servidão.

O Brasil precisa de pontes, sim — mas também de âncoras. E talvez a cadeira vazia da liberdade à nossa mesa esteja à espera de que alguém a reivindique de volta. Não com slogans ou discursos inflamados, mas com ideias firmes, coerentes, e acima de tudo: responsáveis.

Porque conservar não é impedir o progresso. É garantir que, ao avançar, a gente não esqueça de onde veio — nem o que realmente importa.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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