Quitaiús: o berço do recomeço do Rei

29/08/2025

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

– Bom dia, seu Luiz!

– Bom dia, meu filho. O que você deseja?

– Olha, seu Luiz, eu sou compositor e, assim que soube que o senhor estava pelas bandas de cá, vim de Várzea Alegre pra mostrar umas músicas pro senhor.

– Não perca seu tempo, meu rapaz. Eu estou em fim de carreira. Meus forrós já agradaram muita gente, mas hoje em dia…

– Não diga isso. O senhor ainda tem muito a ensinar às novas gerações. O povo nordestino ainda precisa muito do senhor, de sua alegria. Não é hora de parar.

– Compreendo e agradeço pela sua preocupação, mas vejo que meu tempo já passou. Mas me diga cá uma coisa: qual é o seu nome? 

– Zé! Zé Clementino!

– Pois quero lhe propor um desafio, já que você diz que é compositor. Me traga uma música que fale dessa moda dos homens de cabelo grande, esses cabras cabeludos que vêm tomando conta do Brasil.

Foi no ano era 1965, na cidade do Crato, no Cariri Cearense, que aconteceu o primeiro contato entre Luiz Gonzaga e o funcionário público dos correios, o varzealegrense Zé Clementino.

Era uma época na qual uma nova onda musical tomava conta do Brasil – a Bossa Nova e o Rock, esse influenciado sobretudo pelos garotos de Liverpool, Os Beatles. O Velho Lua, acostumado com o sucesso, estava se sentindo rejeitado pelo público e desmotivado para seguir puxando o fole, mas nada que um novo sucesso não resolvesse esse problema.

Uma semana depois, no distrito de Quitaiús, na cidade de Lavras da Mangabeira, Zé Clementino entrega a Luiz Gonzaga uma canção chamada “Xote dos Cabeludos”. A música falava exatamente do que preocupava o Velho Lua. Era uma espécie de protesto a um pensamento que vinha tomando conta dos homens “modernos”:

“Cabra do cabelo grande, cinturinha de pilão, calça justa bem cintada, costeletas bem fechadas, salto alto, fivelão. Cabra que usa pulseira, no pescoço um medalhão. Cabra com esse jeitim, no sertão do meu Padim, cabra assim não tem vez não”. 

O Rei do Baião grava “Xote dos Cabeludos”, em 1967, no Álbum “Oi Eu Aqui de Novo!”. E não deu outra. A música foi um sucesso estrondoso e recoloca Luiz Gonzaga nas rádios de todo Brasil, fazendo com que ele retome a sua carreira gloriosa. Nesse mesmo álbum, Luiz grava outro sucesso de Zé Clementino, que é Xeêm.

Dessa parceria profícua ainda renderam outros grandes sucessos do nosso Rei do Baião, como “O Jumento é Nosso Irmão”, “Sou do Banco”, “Sertão 70” e “Capim Novo”, que foi tema da novela Saramandaia, na Rede Globo.

E foi assim, entre sanfonas, versos e a força da tradição, que nasceu mais um capítulo da nossa cultura que nos enche o peito de orgulho. Porque é exatamente isso: ser nordestino é transformar desafios em música, sofrimento em poesia e a vida em festa, mostrando ao Brasil inteiro que a alegria do nosso povo nunca perde, e jamais perderá, o compasso.

Viva Zé Clementino!

Viva Luiz Gonzaga!

Viva o Nordeste Brasileiro!

Por hoje ficamos por aqui e até a próxima!

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