
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
No Brasil, há artistas que rompem as fronteiras dos palcos para se tornarem parte da própria consciência coletiva.
Entre eles, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil ocupam um lugar singular: são músicos que, em momentos distintos da história, converteram sua arte em resistência, sua consciência em trincheira, sua voz em ato político.
Durante a ditadura militar, quando a censura amordaçava e a violência do Estado buscava silenciar dissidências, esses três nomes se ergueram como símbolos de coragem. Chico, com suas letras engenhosas, soube falar da opressão com metáforas que escapavam aos censores, mas que o público lia com clareza. Canções como “Apesar de você” e “Cálice” tornaram-se hinos não oficiais de uma geração que não aceitava o silêncio imposto.
Caetano e Gil, por sua vez, enfrentaram a repressão de frente: foram presos, exilados, e mesmo à distância mantiveram viva a chama da liberdade, inovando na forma de cantar o Brasil e abrindo caminhos para novas linguagens musicais que também carregavam contestação e resiliência.
Mais de meio século depois, esses três continuam onde sempre estiveram: na vanguarda. Se no passado enfrentaram fuzis e decretos autoritários, hoje resistem ao que podemos chamar, conforme nos ensina meu amigo Dr. Emanuel de Melo Ferreira, de “Democracia Desprotegida”, ameaçada por propostas como a PEC da blindagem, que busca reduzir o alcance da Justiça e criar privilégios políticos em um país já tão desigual.
A presença de Chico, Caetano e Gil nas manifestações contra a PEC, no último domingo, está longe de ser mero gesto protocolar de artistas veteranos. Muito pelo contrário, á a reafirmação de que a democracia não se constrói apenas nas urnas, mas na vigilância constante da sociedade civil — e a cultura, nesse processo, exerce papel insubstituível. São eles que, com o peso simbólico de suas trajetórias, recordam que a resistência aos autoritários não é uma memória distante, mas um compromisso permanente.
Vale ressaltar que a força desses artistas não está apenas em suas músicas, mas na coerência de suas vidas. Nunca se acomodaram ao conforto da fama. Sempre compreenderam que o privilégio de ter voz lhes impunha também a responsabilidade de usá-la em favor do bem. Se nas décadas de chumbo foram a esperança de um país sem voz, hoje são a própria voz de um Brasil que afirma que nenhum retrocesso é pequeno demais para ser ignorado.
A democracia brasileira é jovem, frágil e, muitas vezes, maltratada. Mas enquanto houver quem cante por ela, como Chico, Caetano e Gil, sua chama seguirá acesa. Mais do que artistas, eles são sentinelas do tempo, guardiões da liberdade. E a cada vez que são chamados às ruas, mostram que a música pode não derrubar governos, mas certamente pode impedir que o povo se acostume à mordaça.
Para reflexão, parafraseio Belchior para finalizar a nossa coluna de hoje: “fosse eu um Chico, um Gil, um Caetano e cantaria, todo ufano, os anais da guerra civil”.
Por hoje ficamos por aqui e bom final de semana!

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