O menino – parte III

24/10/2025

— O teu amigo — explicou a senhora. — Nem sempre toma a forma que esperamos. Às vezes ele é coragem, às vezes é memória. Às vezes é a história que alguém contará de ti.

O menino estendeu a mão. O gnomo — ou aquilo que era o gnomo — pousou no seu dedo. Era quente, como se estivesse vivo. Naquelas minúsculas feições, o menino ouviu outras vozes: as vozes da escola, distantes; a voz — frágil — da sua mãe, lá em casa; e, por baixo de todas, uma melodia que parecia dizer: “há coisas que precisam de um gesto para mudarem.”

— Se eu ficar — perguntou ele, a voz fina — o que acontece com eles? Com os meninos que me bateram? Com minha mãe? Com o medo que eu sinto?

A senhora inclinou a cabeça.

— Se ficares, o teu sofrimento terá fim. Terás paz. Mas o mundo ficará como antes, a não ser que alguém tenha em si a força para transformar. Se voltares, não prometo que deixes de sentir dor. Prometo que receberás uma arma nova: a possibilidade de transformar tua dor em palavra, em gesto, em verdade.

O menino calculou — com aquela lógica simples de criança que já aprendeu a fazer contas com as coisas do coração — e escolheu. Escolheu voltar.

A sensação do voltar foi como atravessar uma cortina de papel: frio, luz, um sopro. Abriu os olhos e estava no seu quarto. A mãe correu para ele, chorosa, a face marcada por uma ansiedade que parecia ter vivido meses em horas. O pai, com a voz entrecortada, segurava uma carta nas mãos.

— O que aconteceu? — murmurou a mãe, beijando-lhe a testa.

Ele contou a ela, com dificuldade, o que havia visto. A senhora de branco, o marcante silêncio da lápide, o gnomo. A mãe ouviu, e a cada palavra sua o ar no quarto foi ficando mais leve, como se algo se solta-se.

Na manhã seguinte, o pai voltou da escola com notícias que ninguém esperava: Ângela, a diretora, havia convocado os pais daqueles meninos e, diante de provas — fotos, testemunhas, as marcas no corpo do menino — prometera uma punição severa e um acompanhamento psicológico para os agressores. Não só isso: a escola iria abrir um projeto, uma roda de leitura e convivência, inspirada num relato anônimo que alguém deixara numa caixa de sugestões e que tocara em temas que ninguém ousara tratar. O relato falava de um menino que via um gnomo nas páginas dos livros e que ensinara a uma cidade inteira a ouvir as crianças.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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