Reflexões sobre a contribuição da Reforma Luterana para a educação, um especial para os 508 anos da Reforma Luterana.
Profa. Dra. Jaquelini de Souza
Historiadora, doutora em teologia com pós-doutorado em economia
De forma muito equivocada muitos influencers tradicionalistas católicos (alguns deles padres) acusam Lutero de ser o pai de todas as maluquices que surgem no meio evangélico, devido ao seu conceito de Sola Scriptura, (somente as escrituras em latim), por considerarem que causa interpretações teológicas saídas da cabeça de cada um, sem fundamento com a tradição da Igreja. Em À nobreza cristã da nação alemã (1520), ainda frei, Lutero define a tradição, que ele chamava de “escritos dos santos pais” como os marcos que mostram o caminho, ou seja, as placas que dão direção em uma rodovia. Toda teologia deve ser feita baseada na tradição da igreja, desde que esta tenha fundamento nas Sagradas Escrituras, isto é de fato Sola Scriptura.
É importante dizer isto para entender o contexto teológico dele, foi um crítico mordaz da escolástica, pois a considerava mais aristotélica que católica. No mesmo ano em que publicou as 95 teses contra as indulgências (31 de outubro de 1517), orienta um candidato a bacharel em estudos bíblicos, Franz Günther, em suas 97 teses contra a influência de Aristóteles na teologia (março de 1517) na Universidade de Wittenberg.
Lutero era um patrístico de corpo, alma e coração, afinal era um agostiniano. Portanto, para Lutero, poderia haver tradição, ou seja, teologia, cuja influência maior seja extra bíblica e extra teológica, como considerava a escolástica, apesar de respeitar consideravelmente São Tomás de Aquino. Não são poucas às referências a Santo Agostinho, São Cipriano de Cartago, São Gregório Magno, Santo Atanásio, São João Crisóstomo, Santo Irineu de Lyon e vários outros pais e doutores da Igreja nas obras de Lutero.
Mas o que tudo isto tem a ver com educação? Ora, Lutero queria melhorar a sociedade, torná-la cada vez mais cristã, e para isto considerava duas coisas: educar o clero para que este educasse o povo, portanto a leitura das Sagradas Escrituras era fundamental. E que o povo lesse diretamente as Sagradas Escrituras, que cada família tivesse sua Bíblia em casa, e como a leriam se não sabiam ler? Aqui cabe lembrar seu monumental feito em criar um vocabulário para o alemão, que era somente falado, para traduzir o Novo Testamento do original grego koiné (o grego bíblico) para este alemão que criara em fantásticos 10 meses no ano de 1522! Por este feito, também é considerado o pai da língua alemã e por consequência o pai da pátria alemã!
Lutero produziu duas obras magníficas sobre educação, são elas: Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs (1524) e Uma prédica para que os pais enviem os filhos à escola (1530). Por defender que as cidades alemãs criassem e mantivessem escolas sem custo aos pais, para todas as crianças, de todos os níveis sociais, meninos e meninas! (Uma tremenda revolução para a emancipação da mulher!) Lutero é considerado o pai da escola pública. Mais tarde, iria redigir com sua futura esposa, Katarina Von Bora (após casada, Katarina Luther), uma ex-freira, o primeiro programa de educação pública para a Alemanha.
Cabe aqui fazer uma justiça de um mito sobre Lutero, ele não fez a Reforma para se casar, seu casamento ocorreu oito anos depois de 1517, mais precisamente em 13 de junho de 1525 (Fez 500 anos este ano!), isto mesmo, um ex-padre casando-se com uma ex-freira no dia de Santo Antônio! Mas não vejam isso como ofensa do casal, foi na verdade uma feliz coincidência! Afinal Antônio também fora agostiniano antes de se tornar franciscano, e lutou para que os casamentos fossem por amor e não por dinheiro ou arranjos familiares.
No programa para a educação do povo alemão, Lutero e Katarina sonharam com uma Alemanha de teólogos, filósofos e músicos, onde meninos e meninas aprenderiam com ludicidade. Valorizando também o exercitar-se pela dança e por brincadeiras. Aprender deveria ser um ato alegre e não dolorido. Não é preciso dizer que o projeto foi muito mais que bem sucedido, este é o país de Bach, músico de paróquia da igreja luterana, Beethoven, Kant, Hegel, Marx e do papa Bento XVI, esplêndido teólogo, cuja trilogia Jesus de Nazaré, talvez seja a maior obra teológica deste século. Todos eles são fruto da Reforma Luterana na educação, mesmo que não fossem luteranos, sem Lutero, talvez nem mesmo Marx teria existido!

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