*Ana Isa Arraes do Santos
A série “Insatiable”, da Netflix, narra a história de uma jovem que, após perder peso, busca vingança contra aqueles que a humilharam quando tinha mais corpulência. A obra evidencia como a magreza é socialmente interpretada como uma “recompensa”; e a gordura, como um estigma a ser superado. No Brasil, a gordofobia constitui um grave imbróglio social, que marginaliza indivíduos com base em sua constituição corporal. Nesse contexto, enfrentar essa forma de preconceito esbarra em desafios profundos, como a normalização de padrões estéticos excludentes e os impactos psicológicos decorrentes da discriminação.
Em primeiro plano, a ditadura dos padrões estéticos promove a exclusão e o isolamento social de pessoas com obesidade. A mídia perpetua um ideal de beleza inatingível, legitimando a hostilidade contra corpos que fogem à norma. Esse fenômeno é retratado no filme “Extraordinário”, no qual o protagonista sofre bullying por sua aparência facial, o que ilustra o mecanismo universal de rejeição ao “diferente”, que gera solidão e sofrimento. Analogamente, pessoas obesas enfrentam exclusão em círculos sociais, oportunidades de trabalho e até no convívio familiar, sendo seus corpos constantemente julgados e patologizados, reforçando ciclos de isolamento. Como efeito, esse preconceito prejudica severamente sua inserção plena na sociedade.
Ademais, a gordofobia causa sérios danos à saúde mental e desencadeia transtornos alimentares. A exposição constante ao bullying e assédio moral destrói a autoconfiança, alimentando a ansiedade e depressão. Essa violência oprime a autoestima, como expressa Baco Exu do Blues, cantor baiano: “Eu só ‘tô’” tentando achar a autoestima que roubaram de mim”. O luto pela própria imagem é frequentemente acompanhado por uma relação patológica com a comida, tema abordado em “Orange Juice” de Melanie Martinez, que retrata os conflitos e os costumes associados aos transtornos alimentares. Assim, a gordofobia ataca duplamente: deteriora a saúde psicológica e provoca comportamentos de risco, criando um ciclo de violência.
Portanto, é imperativo combater a gordofobia com medidas que ataquem suas raízes culturais. Nesse sentido, cabe ao corpo social pressionar a mídia, por meio de campanhas de conscientização e regulamentação pública para promover uma representação corporal diversa e positiva. A inclusão de pessoas obesas em novelas, comerciais e programas de entretenimento como indivíduos plenos, e não como estereótipos, é fundamental para que a diversidade corporal não seja patologizada. Somente assim se construirá uma sociedade inclusiva, onde o peso deixe de ser um marcador de humilhação e distinta da que existe na série “Insatiable”.
*Ana Isa Arraes dos Santos, filha de Ana Raquel Peixoto de Andrade e de Jonatas Wallace Germano dos Santos, é estudante do 2º ano “A” da Escola Modelo de Iguatu

0 comentários