ENTRE ÍDOLOS DE AREIA E ÂNCORAS DE FORMAÇÃO: A USURPAÇÃO SIMBÓLICA DO MAGISTÉRIO PELOS INFLUENCIADORES DIGITAIS

12/12/2025

 

Prof. Me. Matheus Lôbo Cavalcante*

 

Há um fenômeno silencioso e perigosamente sedutor infiltrando-se nas estruturas da educação brasileira: a ascensão de indivíduos que se apresentam como “professores” sem terem passado pelo caminho mais elementar da docência: a fricção diária com uma sala de aula real. São vendedores de atalhos tentando ocupar o lugar de quem dedicou anos à formação pedagógica, ao rigor metodológico e ao compromisso ético com o conhecimento. Vê-se a usurpação simbólica do magistério por alguns influenciadores digitais, uma engrenagem corrosiva que substitui processos formativos densos por esquinas sedutoras e soluções imediatistas.

Nesse contexto, a chamada “coachização” opera como uma caricatura do ato educativo, pois uma parcela de influenciadores digitais reduz complexidade a slogans, transforma metodologias em performances e converte estudo em espetáculo. Trata-se de um fenômeno sustentado por discursos simplificados, emocionalizados e facilmente comercializáveis, alterando a própria lógica da autoridade pedagógica, sem chão escolar, sem propósito e sem técnica com a complexidade do ensinar. Eles vendem fórmulas e receitas proféticas, enquanto lucram com a ansiedade e com os sonhos alheios.

É claro, prezado(a) leitor(a), que a presença de influenciadores no debate público, por si só, não constitui um problema. O equívoco reside na crescente confusão entre popularidade e competência. O risco aqui é profundo: quando a performance tenta ocupar o lugar da pedagogia, o país confunde espetáculo com educação e esquece que saberes exigem tempo, método e responsabilidade. Institui-se, assim, uma autoridade sustentada mais pelo brilho do cenário do que pela consistência das ideias. Diante disso, cresce uma idolatria do raso que empobrece o debate educacional e desloca os verdadeiros protagonistas da formação.

Em uma cultura viciada na rapidez e deslumbrada com gurus de ocasião (os “ídolos de areia”, assim chamados porque não estão sedimentados na formação intelectual, desmancham-se facilmente na primeira ventania da vida real), o docente é quem ainda cultiva a profundidade e lembra que pensar não é entretenimento: é, antes de tudo, responsabilidade social. É preciso lembrar que educação não é vitrine! No labor de instigar a refletir, ser professor neste país é um ato de resistência. Na sala de aula, são os mestres do saber, os professores de verdade, que apontam as fissuras que muitos preferem ignorar. São eles que inspiram, orientam e transformam. Eis a influência que importa: aquela que transforma sem vender ilusões.

Talvez aqui esteja o ponto mais desconfortável: o colapso cultural a que se assiste revela um diagnóstico social. Ele apresenta a dificuldade crônica de muitos em diferenciar densidade intelectual de performances vazias, uma dinâmica que revela o risco de transformar ensino em entretenimento, cátedra em palco. Enquanto não enfrentarmos essa ferida aberta, continuaremos celebrando esses “ídolos de areia” e silenciando justamente aqueles que, há décadas, dedicam-se a ensinar o país a construir alicerces.

Apesar de tudo, os professores, âncoras de formação permanente (porque dão firmeza, criam estabilidade cognitiva) seguirão resistentes, insistentes, teimosos, não apenas transmitindo conteúdos, mas devolvendo ao país a chance de pensar antes de ceder às seduções do engano, porque, no fundo, a educação só se sustenta onde há raízes, e raiz nenhuma se faz à sombra do imediato.

 

* Docente dos cursos de Direito da Urca/Campus Iguatu e da UniFIC e professor de Redação da Escola Modelo de Iguatu; Bacharel em Direito (Urca); Licenciado em Letras-Língua Portuguesa (Estácio) e mestre pela UFCG.

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Competências socioemocionais: a base para aprender Precisamos parar e refletir sobre uma questão fundamental da educação: não existe aprendizagem significativa sem equilíbrio entre competências cognitivas e socioemocionais. As competências cognitivas permitem acessar, compreender e reproduzir conhecimentos. Mas são as competências socioemocionais que ajudam o indivíduo a acessar, manusear e utilizar aquilo que aprende. O pesquisador Antonio Damásio demonstra, em seus estudos, que não podemos compreender o cérebro separado do corpo. Aprendemos aquilo que, de alguma maneira, faz sentido para nós. A emoção participa desse processo porque nosso organismo precisa reconhecer determinada informação como importante para direcionar atenção e recursos neurais a ela. Durante muito tempo, os papéis estavam mais definidos. A escola concentrava-se na formação cognitiva, enquanto a família oferecia uma base cotidiana de formação: tarefas domésticas, respeito aos mais velhos, cumprimento de horários, responsabilidades, limites e convivência. Hoje, essa divisão tornou-se mais complexa. Em muitas famílias, faltam papéis claros, regras consistentes, responsabilidades, rotina e convivência. E, quando essa base não existe, a escola acaba recebendo uma criança que precisa aprender conteúdos, mas que ainda não desenvolveu suficientemente as condições emocionais para aprender. O resultado aparece na dificuldade de esperar, ouvir, focar, negociar, lidar com o “não”, aceitar frustrações e persistir diante das dificuldades. Precisamos, portanto, tomar cuidado com uma educação baseada no excesso de proteção, mimos, facilidades e status. Quando os pais fazem tudo pelos filhos, evitam qualquer frustração e elogiam excessivamente beleza, inteligência, notas ou conquistas, podem, sem perceber, formar crianças mais dependentes da aprovação e menos dispostas a enfrentar desafios. O que devemos elogiar? O processo. Elogie o esforço, a dedicação, a disciplina, a determinação e a capacidade de tentar novamente. É aqui que encontramos a contribuição de Carol Dweck com a ideia do “ainda”: “Você ainda não conseguiu”; “Ainda não deu certo”; “Ainda não foi dessa vez”. Isso muda a relação da criança com o erro. O fracasso deixa de ser uma sentença e passa a ser parte do processo de aprendizagem. Precisamos também ensinar a criança a esperar, ceder, negociar, compartilhar, respeitar regras e lidar com a frustração. Essas experiências são treinamentos fundamentais de autorregulação emocional. Por isso, algumas frases precisam deixar de comandar nossas decisões: “Não quero que meu filho fique irritado comigo”; “Não quero que meu filho deixe de ser meu amigo”; “Não quero contrariá-lo”. O papel dos pais não é evitar todo desconforto. É oferecer pertencimento, segurança, clareza e direção. Se queremos crianças emocionalmente fortes e felizes, precisamos parar de educá-las para nunca sofrer e começar a educá-las para persistir, esperar, respeitar, negociar, assumir responsabilidades e continuar tentando. Afinal, o sucesso não é determinado apenas pela capacidade de acertar. Muitas vezes, ele é determinado pela capacidade de persistir quando ainda não deu certo.

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