A pressa de caber e a corrida estética: remédios, aparência e o mal-estar do corpo moderno

23/01/2026

 

 

Prof. Me. Matheus Lôbo Cavalcante

Vivemos o tempo da pressa. Não apenas a pressa do trânsito ou das mensagens instantâneas, mas a pressa de existir em um corpo que agrade aos outros antes mesmo de fazer sentido para quem o habita. Em nome desse culto à aparência, engolimos comprimidos e empunhamos canetas como quem engole promessas.

O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman já nos alertava que, na modernidade líquida, nada é feito para durar. Nem os vínculos, nem as certezas, nem os corpos. O corpo, aliás, tornou-se um projeto inacabado, sempre insuficiente, sempre à espera da próxima correção. Se antes o sofrimento era visto como parte da condição humana, hoje ele é tratado como falha individual. Se não estamos magros, jovens e performáticos, algo em nós “deu errado”.

É justamente nesse cenário que surgem as chamadas canetas milagrosas para emagrecimento, símbolo perfeito de uma época que prefere atalhos à travessia. Pouco importa se o medicamento ainda está em fase experimental, se não há reconhecimento da Anvisa ou se os efeitos a longo prazo permanecem envoltos em incertezas. O discurso é simples e sedutor: emagrecer sem enfrentar hábitos, sem lidar com frustrações, sem atravessar o desconforto. O corpo vira laboratório. O risco, um detalhe técnico.

Há algo de profundamente trágico nessa corrida estética. Não se trata apenas de emagrecer. Trata-se de desaparecer. De reduzir-se. De ocupar menos espaço no mundo, como se o valor de uma vida pudesse ser medido em quilos ou em curtidas. Enquanto isso, os efeitos colaterais não aparecem no feed do Instagram. A ansiedade, a culpa, a dependência e os danos orgânicos ficam fora do enquadramento.

Instala-se, assim, uma banalização perigosa da própria vida biológica. A saúde, que deveria ser o fim, torna-se meio. O importante é caber na roupa, na foto, no espelho, no olhar alheio. O dano futuro parece abstrato demais diante da urgência estética do presente. Morre-se aos poucos, mas aparece-se bem agora. Na lógica do espetáculo, isso soa aceitável.

Situamo-nos naquilo que Byung-Chul Han chamou de sociedade do desempenho, ou do cansaço, na qual os sujeitos se exploram até o esgotamento acreditando exercer liberdade. A exploração, hoje, não é apenas mental ou laboral. É química. “Tomo porque quero”, repete-se como mantra. Mas querer, nesse contexto, raramente é neutro. O desejo já chega moldado por uma cultura que trata a imperfeição como defeito moral.

Evidencia-se aí uma ilusão de autonomia. Acredita-se estar escolhendo livremente quando, na verdade, se obedece a uma ordem silenciosa e onipresente: seja magro, seja desejável, seja eficiente até na forma como emagrece. A caneta não perfura apenas a pele; ela atravessa a ideia de cuidado e transforma a violência estética em autocuidado legitimado.

Michel Foucault já havia apontado que o poder moderno age menos pela repressão direta e mais pelo controle sutil dos corpos. Hoje, esse controle não é imposto. Ele é desejado. O corpo ideal não chega pela coerção, mas pela promessa. E quando o desejo é cuidadosamente fabricado, o consentimento deixa de ser plenamente livre.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “quanto você quer emagrecer?”, mas “por que você precisa tanto caber?”. O que estamos tentando curar com esses remédios ainda não validados? Gordura ou insegurança? Peso corporal ou vazio existencial? A estética virou linguagem de pertencimento. Quem não se adequa, some.

No fim das contas, essa corrida estética revela um mal-estar mais profundo: a dificuldade contemporânea de aceitar a própria condição humana, marcada por limites, tempo e imperfeição. Em vez de elaborar esse desconforto, preferimos medicá-lo. Em vez de escutar o corpo, silenciá-lo. Nenhuma injeção experimental, por mais moderna que seja, resolve essa dor. E o preço dessa pressa de caber pode ser alto demais.

 

Prof. Me. Matheus Lôbo Cavalcante

Docente dos cursos de Direito da Urca/Campus Iguatu e da UniFIC e professor de Língua Portuguesa e de Redação da Escola Modelo de Iguatu; Bacharel em Direito (Urca); Licenciado em Letras-Língua Portuguesa (Estácio); Mestre pela UFCG; Especialista em Língua Portuguesa e Literatura, em Português Jurídico, em Direito Administrativo, em Direito Educacional e em Docência do Ensino Superior.

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