Maria: uma estranha mania de ter fé na vida!

07/03/2026

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Em 1975, Fernando Brant estava numa praia, na cidade de São Francisco de Itabapoana, no Rio de Janeiro, quando um grupo de dança recém-formado, composto por homens e mulheres, o abordaram e pediram a sua ajuda na realização de um sonho: propuseram que ele produzisse o seu primeiro espetáculo. Eu estou falando do Grupo Corpo, hoje um dos maiores grupos de dança do país.

A proposta era o seguinte: Fernando escreveria o roteiro do espetáculo e o seu parceiro musical, nada mais, nada menos do que Milton Nascimento, faria as músicas – todas instrumentais. Fernando topou o desafio e se tornou parceiro do Grupo Corpo. Ambos vinham do Estado de Minas Gerais.

Resultado: o primeiro espetáculo do Grupo Corpo foi sucesso em 14 países.

Algum tempo depois, Milton Nascimento decidiu gravar, cantando, a música que inspirou o roteiro do espetáculo e pediu para que Fernando Brant compusesse uma letra, já que a melodia era dele.

Agora pasmem: no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo de um jogo do Brasil, na Copa do Mundo de 1978, ele escreveu a letra e decidiu homenagear algumas mulheres que marcaram a sua infância: dentre elas estavam três mulheres negras que trabalhavam na casa dos seus pais e contribuíram para a sua formação humana e social, e outra mulher que vivia na cidade de Diamantina-MG, à beira dos trilhos do trem, sozinha com seus três filhos, e que, mesmo vivendo num estado de extrema vulnerabilidade, conseguiu fazer com que todos os seus filhos estudassem.

Ahhhh as mulheres…

Maria, Maria, um verdadeiro hino que canta, com força e delicadeza ao mesmo tempo, a alma da mulher brasileira, se tornou uma das principais canções de Milton Nascimento e foi regravada 144 vezes, com uma versão poderosa na voz da inesquecível Elis Regina.

Há uma lenda que diz que Milton Nascimento fez essa música para a sua mão, que também se chamava Maria. Mas, de fato, Milton compôs apenas a melodia da canção. No entanto, ele não cansa de dizer que essa música foi feita para todas a Marias, para todas as mulheres, do Brasil.

Por fim, não quero lembrar aqui as dificuldades que as mulheres enfrentam todos os dias no Brasil pelo simples fato de nascerem mulher; quero apenas falar para você, mulher, que está lendo esse texto agora: não importa como você se chama. Hoje o seu nome é Maria, essa mulher que prova à humanidade, dias após, que possui verdadeiramente essa estranha mania de ter fé na vida.

Ao Renato Brant e ao Milton Nascimento, muito obrigado por nos deleitarem com tamanha obra de arte.

A todas as mulheres do mundo, em especial à minha mãe Ires Bandeira, minha esposa Carlinha Tavares e minha sobrinha Lara Bandeira, muito obrigado por toda candura que ainda resiste no mundo.

Bom final de semana!

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