Conheço o Meu Lugar

21/03/2026

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

O que podemos fazer com o presente instante?

Belchior nos sugere algo interessante!

Lançada em 1979, no auge da Ditadura Militar no Brasil, “Conheço o Meu Lugar” é um chamamento ao auto reconhecer-se como gente, como pessoa que tem e deve exercer o seu sentido de existir.

Quando Belchior pergunta, já na primeira frase da canção, “O que é que pode fazer um homem comum nesse presente instante” e, em seguida, já dá a resposta “senão sangrar, tentar inaugurar a vida comovida inteiramente livre e triunfante”, ele, nas profundezas de sua genialidade, já nos remete ao entendimento de que aqueles tempos difíceis não seriam capazes de o neutralizar. Por mais que sangrasse, que a dor o comovesse, era hora de engolir o choro e guiar a sua vida na direção da liberdade; e a sua própria vida (a sua voz) era o motivo do orgulho que ele sentia pelo simples fato de ser gente, de ser pessoa. Seria esse o Santo Graal da vida de um homem comum nesse presente instante? (Atentar ao anacronismo)

Belchior clama para que todos aqueles que gozam de plena saúde e sentem os doces perfumes exalados pela juventude, não desanimem diante da barbárie e, assim como ele, usem a sua voz para denunciar, mesmo que de forma velada, as atrocidades cometidas pelo estado brasileiro contra o seu próprio povo. Veja o que ele escreve em um trecho da canção: “Deus fez os cães da rua para morder vocês que, sob a luz da lua, os tratam como gente – é claro – aos pontapés”.

Apesar de se considerar um simples cantador das coisas do porão, Belchior reafirma o seu compromisso com o seu tempo quando diz “olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca”.

Assume a sua responsabilidade, enquanto cidadão livre e consciente de que é capaz de construir a sua própria história e contribuir, de forma decisiva, para a história do seu país, quando diz “não há motivo para festa, a hora é esta, e eu não sei rir à toa. Fique você com a sua mente positiva, eu quero é a voz ativa, ela é que é uma boa”. Veja que aqui, mais uma vez, ele faz referência à voz. Belchior tinha plena consciência da força exercida pela voz, pela palavra.

Em seguida, Belchior diz que é uma pessoa (e isso basta), que tem uma canoa (uma ideia) e que nela embarca sem medo. Que maneira linda e poética de afirmar que acredita em si mesmo, na sua verdade, e que, apesar do fato de que ser gente, naquela época, era perigoso, todas as pessoas deveriam fazer o mesmo. Belchior entendia, antes de tudo, que uma pessoa, de alguma forma, era capaz de mudar a sua própria vida e a vida de alguém. E era por meio desse entendimento que ela acreditava que, mudando os rumos da história das pessoas da sua rua, ele poderia mudar os rumos da história do Brasil e da América Latina.

“Não, você não me impediu de ser feliz; nunca jamais bateu a porta em meu nariz”. Lindamente, nesse trecho, Belchior nos lembra que a resiliência faz parte da vida de quem tem objetivos bem definidos na vida e que ele sabia exatamente onde estava e porque estava naquele lugar. Ameaças, sumiços, medos, incertezas, mortes… nada disso era capaz de tirar a esperança de seu coração e a certeza de que a sua voz ecoaria embalada pelos ventos da liberdade. Ele via vindo no vento o cheiro da nova estação.

Nesse trecho “não, eu não sou do lugar dos esquecidos; não sou da nação dos condenados; não sou do sertão dos ofendidos; você sabe bem: conheço o meu lugar”, Belchior, demonstra claramente que – não importando o lugar onde ele vinha – o seu lugar, naquele instante, era exatamente aquele para o qual o coração de sua geração o chamara.

E ele foi, permaneceu, e permanece…

Por fim, hoje, quase nove anos depois de sua morte, a obra de Belchior permanece sendo sinônimo de amor. Mas não num sentido de que ele possa ter nos ensinado o que é o amor – a construção desse sentimento é extremamente particular – mas no sentido de que, uma vez que descubramos o que é o amor, Belchior nos ensina o que fazer com ele.

Bom fim de semana!

 

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