A última refeição

04/04/2026

O dia amanheceu chovendo. O padre Elias, acusado de heresia pelo povo da sua própria comunidade e pela Igreja, orava ajoelhado junto a sua cama de alvenaria enlodada. Os dias eram difíceis para o macróbio.

Não obstante a acusação indecorosa, ainda alguns poucos fieis o procuravam para confessarem seus pecados e expiarem, assim, suas culpas. ‘‘Muitas são as aflições do justo, mas o SENHOR de todas o livra’’, dizia para si e para os seus confessados essa passagem encontrada no livro dos Salmos: 34:19.

Indisposto, o religioso já não mais conseguia jejuar como antes. Os dias intermináveis eram aproveitados por intermédio de orações e leitura das Sagradas Escrituras. A sua aproximação com experimentos científicos tinha sido considerada ocultismo, por isso fora denunciado como bruxo e apostata. Os pedidos de soltura do padre foram negados… todos.

Ainda chovia forte quando lhe fora informado sobre a sua sentença: condenado à forca. O velho padre não esboçou reação alguma. Não chorou nem aparentou nervosismo ou o que quer que fosse. Estava, ao contrário, pleno. Não argumentou. Apenas deitou-se – estava cansado – e balbuciou mais uma oração ao Senhor.

Naquela noite, o som da chuva parecia mais suave, como se o céu, enfim, tivesse se cansado de chorar. O padre Elias dormiu por poucas horas, mas o suficiente para sonhar — e, no sonho, não havia grades, nem acusações, nem vozes de condenação. Havia apenas luz.

Ao amanhecer, foi despertado pelo ranger da porta de ferro. Um carcereiro entrou, trazendo consigo uma bandeja simples: um pedaço de pão, uma tigela de caldo ralo e um pouco de água. Era sua última refeição.

Elias ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na parede fria. Observou o alimento por alguns instantes, como quem contempla algo sagrado. Fez o sinal da cruz e sussurrou:

— “Bendito sois, Senhor, que nunca me deixastes faltar o necessário.”

Antes que tocasse no pão, porém, ouviu passos apressados do lado de fora. A porta tornou a se abrir, revelando uma figura trêmula — um jovem, encharcado pela chuva, com os olhos vermelhos de desespero. Era Tomás, um dos poucos que ainda o procuravam em segredo.

— Padre… — disse ele, quase sem voz — fui eu.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que as correntes.

— Fui eu quem o denunciou — continuou, caindo de joelhos. — Disseram-me que o senhor praticava o mal… que desafiava Deus… eu tive medo. Mas eu estava errado! Eu vi… eu entendi! Aqueles estudos… eram para curar, para compreender… para ajudar!

O velho padre o olhou com ternura, como se já soubesse de tudo.

— Levante-se, meu filho — disse com voz fraca, porém firme. — Nenhuma verdade nasce sem ser perseguida.

Tomás chorava.

— Não há mais tempo… eles não vão voltar atrás…

Elias sorriu, um sorriso sereno, quase luminoso.

— O tempo dos homens nunca foi o mesmo tempo de Deus.

Então, com mãos trêmulas, partiu o pão ao meio. Entregou a maior parte ao jovem.

— Coma.

— Não, padre… é sua última refeição…

— Justamente por isso — respondeu Elias. — Nunca foi sobre mim.

Tomás hesitou, mas aceitou. Ao comer, entre lágrimas, parecia também engolir a culpa que o consumia.

O padre tomou apenas um pequeno pedaço e um gole de água. Depois, fechou os olhos e começou a orar em voz alta, não por si, mas por todos: pelos que o condenaram, pelos que duvidaram, pelos que tiveram medo.

Horas depois, quando o levaram à forca, a chuva havia cessado completamente. O céu, antes cinzento, abria-se em um tímido clarão.

A multidão o aguardava. Alguns olhavam com desprezo, outros com curiosidade. Mas, entre eles, havia também olhos marejados — e um jovem que não conseguia erguer o rosto.

Ao subir os degraus, Elias não vacilou. Fitou o horizonte como quem finalmente enxerga além dele.

Antes que a sentença fosse cumprida, pediu apenas uma coisa:

— Permitam-me uma última palavra.

Concederam.

Ele então disse, com voz firme que ecoou pela praça:

— Perdoem-se.

Não houve tempo para mais nada.

Quando a estrutura cedeu e o corpo silenciou, um vento leve atravessou a multidão. E, naquele instante, muitos juraram sentir algo inexplicável — não medo, nem culpa, mas uma estranha paz.

Tomás caiu em prantos.

Naquela noite, pela primeira vez desde a acusação, ninguém ouviu trovões.

E, anos depois, quando a verdade sobre os estudos do padre veio à tona — curas, descobertas, registros que salvavam vidas — já não havia como desfazer a injustiça.

Mas havia algo que permanecia.

Diziam que, sempre que a chuva caía sobre aquela antiga prisão, era possível ouvir, entre os pingos, uma oração serena.

E, no coração dos que escutavam, uma certeza nascia: o justo pode ser condenado pelos homens — mas jamais abandonado por Deus.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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