Mais um corpo fora encontrado por populares na outrora pacata cidade interiorana; era o terceiro homem assassinado em menos de três meses. Ao lado do corpo, como encontrado nos corpos dos outros, uma vela negra apagada, mas que indicava ter sido acesa, provavelmente após o crime, pelo serial killer.
Seria um ritual ocultista? Ou a cena pitoresca apenas sugeria isso para despistar a real causa? E quem seria o perpetrador sanguinário? E quais as suas motivações? Por que escolhera exatamente essas pessoas para assassinar? Ou seriam infelizes vítimas aleatórias?
Essas e outras questões eram as indagações que a polícia e a sociedade se faziam. O fato é que a população estava em polvorosa com o cenário de medo instaurado. Muitos já não mais saíam de suas casas, nem mesmo para trabalhar. Mulheres e crianças, então, não eram mais vistas nas ruas; apenas alguns corajosos homens se dedicavam à lavoura e ao comércio prejudicado da cidade.
O que se sabe até então:
Primeira vítima: Aroldo Lamartine (67 anos); viúvo; pai de dois rapazes (nenhum mora na cidade). Era serralheiro e vivia na zona rural. Seu corpo fora encontrado por populares, após buscas, apenas três dias após o crime, em um matagal fechado. Ao lado do defunto, uma vela negra. Até onde se sabe, não possuía desafetos. Frequentador da Capelinha Celestial, era tido como um homem religioso e simplório.
Segunda vítima: Jorge Vieira. Solteiro (42 anos), sem filhos. Profissional do comércio – tinha uma pequena venda de condimentos no centro da cidade. Uma senhora o encontrou estirado na calçada de sua residência cedo da manhã. Uma vela negra apagada, caída (provavelmente pelo vento noturno), também fora encontrada ao lado do corpo. Era tido como um sujeito taciturno e ranzinza, sem amigos ou parentes na cidade. Entretanto, também ele não possuía inimizades.
Terceira vítima: Julião de Silveira (39 anos). Havia chegado à cidade há apenas nove meses. Pouco se sabia sobre o sujeito. Apenas que era um boêmio e mulherengo, que se envolvia com mulheres comprometidas e solteiras. Sua forma de sustento era desconhecida. Tal estilo de vida do rapaz fazia com que as autoridades o considerassem alvo de muitos desafetos. Seu corpo fora encontrado, diferente dos demais, com um saco na cabeça. Todavia, o ritual fora mantido: uma vela negra ao lado do corpo.
Em comum, além da vela negra, era o fato de todos terem sido estrangulados: um com um fio elétrico, o outro com uma corda e o último com uma liga de borracha. Nenhuma testemunha, até então. Nenhum ponto em comum entre as vítimas fora percebido. Nenhum suspeito! Nenhuma linha a ser seguida.
O maníaco logrou êxito sem deixar qualquer rastro, ao que parece. O agora alcunhado Vela Negra era o terror dos cidadãos da pequena cidade. Não se sabia quando ele iria atacar novamente; se é que iria. Quantas vidas ele pretende ceifar, afinal? O clima de insegurança pairava por todos os lares. Mulheres receavam ficar viúvas. Filhos temiam pela orfandade. Já os homens não temiam por eles, mas pelos seus. Morrer pouco importa. O problema é deixar os entes queridos desolados após a partida[…]
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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