
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Há músicas que nascem de longos processos criativos, lapidadas com rigor quase científico. Outras, no entanto, brotam como relâmpagos — espontâneas, vivas, inevitáveis. Chinelo de Rosinha pertence a esse segundo grupo. E é justamente aí que reside sua beleza — e a grandeza de Zé Clementino.
A história é quase cinematográfica. Em junho de 1978, durante a inauguração da Rádio Cultura de Várzea Alegre – empreendimento do então Deputado Federal varzealegrense Mauro Sampaio, ex-prefeito do município de Juazeiro do Norte e historicamente conhecido por ter sido o prefeito que construiu a estátua do Padre Cícero na Colina do Horto e o estádio de futebol O Romeirão.
O cenário estava pronto: palco montado, público em frenesi e a presença confirmada de ninguém mais ninguém mesmo do que Luiz Gonzaga e do Trio Nordestino. Faltava, porém, algo essencial — uma música inédita que representasse a terra, a cidade de Várzea Alegre.
Zé Clementino, até então despreocupado com qualquer criação, estava distante desse clima artístico. Foi preciso a provocação dos amigos — e o gesto inicial de seu irmão, Paulo César Clementino, que rabiscou os primeiros versos — para que o poeta despertasse. E, quando despertou, fez jus ao título: em poucos minutos, completou a canção que se tornaria um clássico regional.
Esse episódio revela mais do que um talento ocasional. Mostra a essência do poeta popular: aquele que, mesmo sem planejamento, carrega dentro de si uma leitura sensível do cotidiano – essa chama imortal da poesia. Zé Clementino transforma o simples — o chinelo, o forró, a figura de Rosinha — em linguagem universal. Sua poesia não busca a erudição; busca o reconhecimento. E o encontra.
Gravada ainda naquele ano pelo Trio Nordestino, Chinelo de Rosinha rapidamente caiu no gosto popular. Não por acaso. Sua leveza, seu ritmo e sua narrativa direta traduzem o espírito do Nordeste — festivo, criativo e profundamente humano.
Mais do que autor de um sucesso, Zé Clementino se afirma, nesse episódio e em outro que viriam, como símbolo de uma tradição poética que resiste ao tempo: a do artista que cria no calor do momento, guiado não por métodos, mas por intuição – por sabedoria popular. Em um mundo cada vez mais enlatado, sua obra nos lembra que a arte, muitas vezes, acontece justamente quando ninguém está tentando fazê-la.
Bom final de semana e até a próxima!

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