O Vela Negra (parte II)

02/05/2026

Resumo da parte I: Uma série de três assassinatos em uma cidade interiorana, onde todas as vítimas são encontradas com uma vela negra ao lado do corpo, sugerindo um possível ritual. Apesar das diferenças entre os mortos, todos foram estrangulados e não há pistas claras sobre o criminoso. O mistério e o medo tomam conta da população, enquanto a polícia não consegue identificar suspeitos nem conexões entre os casos, consolidando a figura do serial killer conhecido como “Vela Negra”.

 

A princípio, a vela negra parecia apenas um símbolo deixado pelo assassino — algo ritualístico, talvez até para despistar. Mas foi justamente esse detalhe que chamou a atenção da equipe investigativa.

Enquanto a cidade mergulhava no medo, o perito responsável, de nome Tarcísio Alcântara das Neves, decidiu tratar a vela não como um objeto simbólico, mas como uma evidência técnica. Em vez de focar no “significado”, ele focou na composição.

No laboratório, a análise revelou algo incomum: não era uma vela comum de parafina. Havia uma mistura específica de cera vegetal com resíduos de gordura animal, além de um tipo raro de corante mineral que não era facilmente encontrado em velas industriais. Mais curioso ainda: o pavio continha fibras de algodão misturadas com um fio sintético resistente ao calor — algo típico de produção artesanal, não comercial.

Esse conjunto de características reduziu drasticamente as possibilidades. A investigação então mudou de rumo. Em vez de procurar suspeitos diretamente, a polícia começou a mapear produtores artesanais na região. Foram visitadas feiras, lojas esotéricas, pequenos comércios e até artesãos informais. A maioria trabalhava com materiais comuns — nada que coincidisse com a composição encontrada.

Até que um detalhe surgiu: um pequeno fornecedor local lembrava de um cliente específico que havia encomendado velas negras “diferentes”, com exigências muito precisas: queria que fossem mais resistentes, queimassem lentamente e tivessem uma tonalidade opaca, quase fosca. Para isso, ele mesmo havia sugerido a mistura de materiais — exatamente os mesmos identificados na perícia.

O artesão não sabia o nome completo, mas lembrava bem do homem: reservado, falava pouco, mas demonstrava conhecimento incomum sobre composição de velas.

Com base na descrição, cruzaram-se dados com registros de compras recentes de matéria-prima incomum na região. Um único nome apareceu repetidamente — alguém que havia adquirido pequenas quantidades dos mesmos componentes usados nas velas, em locais diferentes, tentando não levantar suspeitas.

A partir daí, o quebra-cabeça se fechou. A polícia não encontrou o assassino por testemunhas, nem por câmeras, nem por ligação entre as vítimas. Encontrou-o porque ele acreditou que uma vela seria apenas um símbolo. Mas, no fim, foi justamente o que a vela era — sua matéria, sua composição, sua origem — que o denunciou […]

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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