Naquela cidade úmida, amigo leitor, de ruas estreitas e igrejas envelhecidas pela fuligem do tempo, havia um bar que parecia existir fora do curso natural da vida. Chamavam-no de ‘‘Naufrágio’’. O nome não era inadequado. Ali aportavam homens derrotados — viúvos, poetas fracassados, comerciantes arruinados e criaturas cuja própria sombra parecia fatigada de acompanhá-las.
Foi nesse recinto que conheci Arnaldo Bismark. Não me esquecerei jamais de sua figura. Alto, magro, excessivamente pálido, trazia o aspecto singular dos homens que envelhecem não pelos anos, mas pelas lembranças. Seus olhos eram fundos e febris; havia neles a expressão de alguém que permanecera longo tempo contemplando uma porta que nunca se abre.
Frequentava o bar todas as noites, invariavelmente à mesma mesa — um canto sombrio junto à janela embaçada. Bebia devagar. Nunca ria. Nunca parecia ouvir a música triste do gramofone antigo. Contudo, à medida que o álcool lhe subia às faces, algo de estranho lhe acontecia. Ele começava a falar sozinho. Ou assim julgávamos.
No princípio, os frequentadores zombavam discretamente. Alguns afirmavam que conversava com demônios; outros, que a bebida lhe apodrecera a razão. Mas eu, levado por uma curiosidade mórbida que sempre me acompanhou desde a juventude, meu amigo, decidi observá-lo mais atentamente. Numa noite de maio, a tempestade rugia como um animal colossal sobre os telhados da cidade. O bar estava quase vazio. Sentei-me próximo de Arnaldo sem que ele parecesse notar minha presença. Tinha diante de si três copos vazios e um quarto pela metade.
Foi então que ouvi.
— Hoje ela virá mais cedo — murmurou ele.
A frase foi pronunciada com uma serenidade tão terrível que senti um frio percorrer-me os braços.
— Quem? — perguntei, apesar de mim mesmo.
Arnaldo ergueu lentamente os olhos.
— Helena.
Disse o nome como quem toca em uma ferida aberta.
Soube depois que Helena fora sua esposa. Morrera havia cinco anos de uma desconhecida enfermidade rápida e cruel. Desde então, Arnaldo jamais retornara verdadeiramente ao mundo dos vivos. A chuva engrossava. O lampião sobre nossa mesa oscilava com o vento que atravessava as frestas do bar. Então percebi uma transformação singular em seu semblante. Não era apenas embriaguez. Seus olhos fixaram-se num ponto vazio diante dele, e uma espécie de reverência lúgubre tomou-lhe a postura. Ele sorria. Um sorriso doloroso.
— Você demorou — sussurrou.
Não havia ninguém ali.
Entretanto… juro por tudo que me resta de razão… o ar diante dele parecia mais denso. Como se a própria escuridão houvesse adquirido forma. Arnaldo começou a falar baixo, respondendo a perguntas inaudíveis.
— Não… ainda não consigo dormir.
Silêncio.
— Porque sinto frio quando acordo sozinho.
Silêncio outra vez.
Então seu rosto empalideceu de modo sobrenatural.
— Eles sabem? — perguntou.
A essa altura, minhas mãos tremiam.
Ele continuava fitando o vazio, mas lágrimas escorriam-lhe pela face.
— E o que existe depois?
Jamais esquecerei a expressão que lhe sobreveio em seguida. Não era medo. Era algo pior. Um assombro absoluto — o olhar de um homem que contemplara a engrenagem secreta do universo e percebera nela uma verdade insuportável. Arnaldo apertou o copo com tanta força que o vidro rachou em sua mão.
— Então é isso… — murmurou. — Continuamos vivos dentro da saudade dos outros…
O vento apagou metade das luzes do salão. Ninguém mais no bar ousava mover-se. Sua voz tornou-se ainda mais baixa.
— E a dor? Como se suporta?
Silêncio. Então ele fechou os olhos. Sorriu. Um sorriso sereno, quase infantil.
— Bebendo até que a porta se abra outra vez…
Naquela noite, deixou o bar antes do amanhecer. Caminhou sozinho sob a chuva, dissolvendo-se na névoa como um espectro. Nos dias seguintes, não apareceu. Nem na semana seguinte. Foi apenas no décimo segundo dia que soubemos. Encontraram Arnaldo morto em sua casa, sentado diante da mesa de jantar. Não havia sinais de violência. Apenas uma garrafa vazia, um copo intacto e uma expressão de profunda tranquilidade em seu rosto.
Mas há um detalhe que jamais foi explicado: os vizinhos juraram ter ouvido duas vozes conversando naquela madrugada. E sobre a mesa, diante do cadáver, havia dois copos. Ambos molhados. Desde então, evito passar diante do ‘‘Naufrágio’’ após a meia-noite. Contudo, em certas noites de chuva, quando o vento carrega o odor distante de vinho e madeira úmida, ainda me recordo das palavras de Arnaldo Bismark. “Continuamos vivos dentro da saudade dos outros.” E confesso, não sem vergonha, que às vezes me pergunto se os mortos realmente partiram… ou se apenas aguardam, pacientes, no fundo de algum último cálice.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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