Luiz Fidelis e a Fênix

16/05/2026

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Essa semana estava escutando no rádio, enquanto dirigia, a canção Meio-Dia, de Luiz Fidelis. Imediatamente lembrei-me da alegoria da Fênix, aquela ave que de tempos em tempos se jogava ao fogo e renascia de suas próprias cinzas.

Sim, Kleylton? E o que tem a ver uma coisa com a outra? Pois bem…

Em um país acostumado a transformar sua cultura popular em produto descartável, alguns artistas resistem como verdadeiros guardiões da memória coletiva. É nesse lugar que habita Luiz Fidelis: não apenas como cantor ou compositor, mas como um cronista do Nordeste vivido, um poeta popular que traduziu em música os sentimentos, os costumes, os amores e as dores do povo nordestino.

Natural do Cariri cearense, mais precisamente da cidade de Juazeiro do Norte, Luiz Fidelis construiu uma obra que vai muito além do entretenimento. Suas canções carregam o cheiro da terra molhada do sertão, o som da sanfona ecoando nas festas juninas e a linguagem simples do homem nordestino. Em tempos de músicas que não conseguem de adequar a nenhum estilo musical, a canção de Luiz Fidelis se traduz no chiado da vassoura de palha que “barre” o terreiro, no gibão do vaqueiro, no cantar do galo, no cheiro do café, não benção de pai e mãe. Não é só música, é identidade de um povo que ama e tem fé.

Ao longo da carreira, Fidelis teve composições gravadas por nomes fundamentais da música brasileira, como Elba Ramalho, Dominguinhos, Fagner e bandas que marcaram gerações do forró, como Mastruz com Leite. Contudo, reduzir Luiz Fidelis ao sucesso de suas composições seria um erro imperdoável de minha parte. Sua importância reside, sobretudo, na capacidade de manter viva a alma cultural do Nordeste.

Canções como “Baião de Dois”, “Seis Cordas”, “Olhinhos de Fogueira”, “O Que é Saudade” e “Flor do Mamulengo” não são apenas músicas; são retratos sonoros de uma civilização culturalmente rica, muitas vezes marginalizada pelos grandes centros econômicos do país (sem vitimismo). Em suas letras, o Nordeste deixa de ser caricatura e, mais do que nunca, trona-se sujeito de sua própria história.

Luiz Fidelis pertence a uma linhagem de artistas que compreendem a cultura popular como patrimônio coletivo. Assim como Luiz Gonzaga eternizou o sertão através do baião, Fidelis ajudou a atualizar essa herança, conectando tradição e contemporaneidade sem abandonar as raízes. Sua obra demonstra que a modernidade não precisa significar apagamento cultural.

Exatamente por isso sua música atravesse gerações com tamanha naturalidade. Fidelis canta o Nordeste com honestidade, sem folclorizá-lo. Não transforma o sertanejo em personagem exótico; ao contrário, atribui-lhe humanidade, dignidade e o protagonismo que compõem a sua essência.

Em um Brasil que frequentemente valoriza referências estrangeiras enquanto negligencia seus próprios símbolos culturais, reconhecer a importância de Luiz Fidelis é também reconhecer a potência intelectual e artística da cultura nordestina. Sua trajetória prova que o forró, o baião e a poesia popular não pertencem ao passado: continuam vivos, pulsantes e essenciais para compreender a identidade brasileira.

 

Mas e a Fênix?

O homem, por muitas vezes na história da humanidade, também construiu a sua própria pira, jogou-se ao fogo e, assim como a Fênix, ressurgiu das cinzas. Basta buscarmos nos livros, nos filmes, nas canções as histórias das guerras. Mas por que será que o homem insiste e continuar buscando o seu fim nesse fogo quase eterno? A resposta é simples: por não está sabendo utilizar algo inerente ao Homem e ausente na Fênix: a memória. Se conhecêssemos as dores do passado, evitaríamos sofrer novamente.

E é exatamente aqui que Luiz Fidelis entra nessa história – a sua obra é peça fundamental nesse processo de autoconhecimento de um povo. O nordestino se reconhece na sua voz rouca. No entanto, Fidelis não é apenas um artista do Nordeste. Ele é um dos grandes responsáveis por fazer com que o Brasil se lembre de onde veio, onde está e para onde vai.

Obrigado, Luiz Fidelis!

Bom fim de semana e até a próxima!

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