SANGUE DERRAMADO NA PRAÇA

09/05/2026

Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp*

Este texto é um testemunho de indignação, mas também um manifesto de esperança. Ele nasce da dor profunda pelo assassinato de minha irmã, Irani, em 2022, e encontra eco na voz profética da pastora Helena Raquel. Busco reafirmar que o combate ao feminicídio deve prevalecer sobre qualquer disputa política ou ideológica. É um chamado à justiça e à memória, para que o sagrado nunca seja escudo para o crime.

O sangue de Irani

Sou padre e sou sertanejo. Vivo em São Paulo há muito tempo, mas minhas raízes jamais saíram do solo do Ceará. Em 2022, esse mesmo solo foi marcado por uma tragédia que nenhum seminário prepara um sacerdote para enfrentar. Apenas dois meses após sepultarmos meu pai, fomos golpeados pelo inimaginável: minha irmã, Maria da Conceição, 43 anos, a nossa Irani, foi assassinada pelo “companheiro”, aquele que deveria protegê-la e amá-la.

Eram 7h da manhã de 12 de setembro daquele fatídico 2022 quando Irani foi golpeada na Praça CEMIG, em Iguatu, CE. Ela levantara cedo, como em todos os dias, e estava em seu lugar de dignidade, trabalhando em sua banca de lanches e servindo o sustento da vida, quando sua existência foi ceifada diante da cidade que acordava. Fui às pressas de São Paulo ao Ceará, sob o peso de lágrimas espessas. No aeroporto de Guarulhos, precisei pedir ajuda no pronto-socorro; as enfermeiras aferiram minha pressão e expressaram sentimentos. Não havia muito o que dizer. Se há dois meses o choro pelo meu pai, neste mesmo percurso, era o curso natural da vida, desta vez as lágrimas traziam o amargor de uma violência injustificável. Fui sepultar nossa irmã caçula e, naquela mesma praça — transformando o chão do calvário em altar —, celebrei sua Missa de Sétimo Dia entre preces e choro.

O assassino, que ironicamente se dizia “crente”, tantas vezes almoçou na cozinha de minha mãe e armou a rede em nosso alpendre, foi condenado um ano depois, graças às provas contundentes e à competência da justiça. A sentença foi um grande alento, mas não apaga o dilaceramento de minha mãe e de nossa família. Por isso, lutamos. Gostaríamos que aquela praça recebesse oficialmente o nome de Praça Maria da Conceição (Irani). Queremos que aquele chão seja um memorial que recorde o sangue de Irani — que é também o sangue de tantas outras — e que seu nome se erga como um grito contra a barbárie.

 

A voz de Helena Raquel

Foi com essa ferida aberta que assisti, pelas redes sociais, ao discurso da pastora Helena Raquel no congresso dos Gideões, em 02 de maio de 2026, em Camboriú, SC. Ao vê-la confrontar a violência doméstica diante de uma multidão, senti que sua fala não era apenas um vídeo viral, mas um bisturi contra a omissão. Percebi em sua voz e em sua performance uma verdade que supera partidos políticos e pautas polarizadas. Senti em meu coração uma vontade de abraçar aquela mulher corajosa e agradecer por sua voz de comunhão, iluminada pela luz divina.

A história bíblica nos ensina que o silêncio diante da injustiça contra a mulher é um pecado antigo: Suzana (Daniel 13), vítima de uma armadilha tramada por líderes que deveriam protegê-la, só foi salva porque uma voz profética, a de Daniel, levantou-se para desmascarar a hipocrisia e exigir a verdade. Helena Raquel agiu como Daniel; ela usou o púlpito para confrontar todos os agressores, mas especialmente aqueles que se escondem sob mantos de religiosidade. Ao proclamar que “o altar não é esconderijo para criminoso” e que “Deus não te chamou para ser mártir de um casamento abusivo”, ela grita contra a chaga do feminicídio com uma força inigualável: o feminicídio é o fracasso absoluto da humanidade e uma afronta ao Criador.

 

A Mulher Viva

O impacto desse discurso contundente gerou ruído político: a esquerda o usou como ponte estratégica; a direita acusou instrumentalização; setores laicos temeram a “dependência do púlpito”. Mas, enquanto a política se perde em narrativas, os números gritam. O Brasil registra um feminicídio a cada seis horas. Em 2023, foram 1.463 mulheres mortas. A disputa ideológica, por vezes, ignora a carne que sangra e tomba.

Ao identificar-me com o discurso de uma pastora pentecostal, eu, que venho das bases e sou discípulo do mesmo mestre, Jesus Cristo, aquele que se inclinou para se igualar à mulher humilhada em praça pública (João 8, 1-11), atesto que a ética da vida deve estar acima de qualquer sigla. Nem fui pesquisar o espectro político da pastora; queria, naquele momento, apenas admirá-la e agradecê-la. A política verdadeira é para o bem comum. As campanhas partidárias passam, as temporadas eleitorais terminam, mas a luta para que nenhuma outra mulher tombe às 7h da manhã, enquanto trabalha pelo sustento dos filhos, é o que dá sentido ao nosso ministério. O discurso de Helena Raquel é maior que qualquer partido porque denuncia a hipocrisia diante da morte de mulheres que são assassinadas apenas por serem mulheres.

Juntemos nossa voz à voz de Helena Raquel e de tantas outras “helenas” anônimas. Justiça por Irani e pela multidão de outras “Iranis”. “Nem uma a menos” não é apenas um lema; é a nossa oração e a nossa pauta mais urgente para que a mulher permaneça viva, livre e respeitada.

 

(*Padre Paulino, Doutor em Comunicação e Semiótica, professor, poeta e editor. Membro do Observatório da Comunicação Religiosa)

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