Quando Junho desembarcou no Brasil

27/06/2026

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Há meses que não cabem no calendário. Junho é um deles.

Ele chega vestido de bandeirolas, com cheirinho de milho assado, com o som da sanfona que parece atravessar séculos antes de alcançar nossos ouvidos. Mas a história dessa festa começou muito antes do que a gente possa imaginar.

No século XVI, os portugueses trouxeram consigo, nas embarcações que cruzavam o Atlântico, uma tradição que já iluminava as noites da Península Ibérica. Eram as antigas Festas Joaninas, celebradas em honra de São João Batista. O hábito de acender fogueiras para anunciar que o santo havia chegado, de reunir famílias em torno da mesa e de celebrar a esperança no tempo das colheitas veio se juntar aos que por aqui já haviam.

No Brasil, porém, nenhuma tradição permaneceu igual.

A terra tratou de reescrever a festa. As fogueiras ganharam o calor do povo, as rezas aprenderam o sotaque brasileiro e a antiga Festa Joanina tornou-se Festa Junina, abraçando não apenas São João, mas todo o mês em que a fé e a alegria parecem caminhar de mãos dadas.

Foi no Nordeste, entretanto, que junho encontrou sua morada definitiva.

Aqui, a festa deixou de ser apenas um costume europeu para transformar-se numa verdadeira declaração de amor a si mesmo. Cada bandeira colorida tremulando ao vento passou a contar a história de um povo que é feliz por se reconhecer como verdadeiramente é. Cada quadrilha tornou-se um teatro da vida sertaneja, matuta mesmo. Cada panela de canjica, pamonha, mungunzá ou pé de moleque passou a guardar a memória das colheitas e da partilha, exalando o cheiro da vida.

Então veio a música.

E quando a sanfona encontrou as mãos de Luiz Gonzaga, o Brasil inteiro descobriu que o sertão também podia cantar sua própria grandeza. Gonzaga não apenas interpretou o Nordeste; ele lhe deu voz (não me canso de falar isso). Fez da seca poesia, da saudade melodia e da esperança um refrão capaz de sustentar a nossa própria existência. Em suas canções, o Nordeste é o Brasil inteiro.

Depois dele, muitos continuaram essa missão. Dominguinhos fez da sanfona um idioma universal. Jackson do Pandeiro reinventou o ritmo com uma genialidade que parecia desafiar o tempo. Elba Ramalho transformou o palco num arraial permanente. Alceu Valença misturou tradição e ousadia num som psicodélico e imortal. Flávio José manteve viva a essência do forró autêntico, enquanto novas gerações, como Santanna, o Cantador, Dorgival Dantas, Luiz Fidelis, Chambinho do Acordeon, Lucy Alves e tantos outros, continuam acendendo essa fogueira cultural que jamais se apaga.

O Nordeste não celebre apenas uma festa., celebra uma herança, celebra um povo que entendeu que a fogueira de São João e a sua própria alma se confundem e permanecerão acesas ad eternum. Quando junho chega, o sertão parece florescer mesmo antes da chuva. As cidades se enfeitam, os corações diminuem a pressa, as sanfonas reencontram seus ritmos e as fogueiras iluminam mais do que as ruas: iluminam a memória, que por sua vez ilumina a vida.

No fim das contas, a Festa Junina nunca foi apenas sobre um mês do ano. Ela é a prova de que, passe o tempo que passar, jamais faltará uma voz para cantar o Nordeste.

Enquanto houver uma sanfona tocando, uma fogueira acesa e um povo disposto a celebrar suas raízes, junho continuará desembarcando no Brasil — e, sobretudo, no Nordeste — como quem volta para casa.

Bom fim de semana e até a próxima!

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