Legítimo de Braga
Diziam os antigos que o homem reto se mede pela constância de seus passos e pela firmeza com que honra a sua terra.
No mundo clássico, nenhum nome brilhava mais em retidão do que o de Heitor, o filho de Príamo. O herói de Troia era o homem inteiro, justo, reto e pronto, que defendia seu chão não pela glória vazia da guerra, mas pelo dever sagrado de proteger a vida e a história de sua gente. Ele era a própria tradução da honra ligada ao território.
A promessa de um solo digno também está escrita nas páginas sagradas quando Deus selou sua aliança com Abraão: “Dar-te-ei esta terra que fica entre o grande rio Eufrates e o rio do Egito”*. E quando o Criador prometeu livrar seu povo da escravidão, o horizonte desenhado não era o de um deserto estéril, mas o de uma terra onde corria leite e mel — uma terra com água em abundância. Porque Deus sabe que a liberdade sem água é apenas uma promessa seca. Sem o líquido que fecunda o chão, o homem não se estabelece; vira poeira ao vento.
Para entender a urgência do homem verdadeiro, é preciso olhar para as cicatrizes mais profundas da nossa história. Nem sempre o Ceará encontrou a retidão de Heitor em seus governantes. Entre os anos de 1877, 1878 e 1879, o solo cearense transformou-se em um imenso altar de sacrifício. Aproximadamente 500 mil cearenses pereceram sob o açoite implacável da fome, da peste e da miséria extrema — abandonados à própria sorte pelo governo imperial do Rio de Janeiro.
No Senado do Império, vozes desesperadas tentaram romper a indiferença da corte. O senador Pompeo de Sousa Magalhães Figueiras alertara, com angústia na alma, sobre o terrível prenúncio de 1877: o dia de São José passara sem que uma única gota de chuva tocasse a terra. Sem a chuva do santo padroeiro, a pujante Civilização do Couro — que por mais de 300 anos havia sustentado a economia e a identidade do Ceará profundo — corria risco de morte.
O Rio Jaguaribe era a grande artéria de vida daquele ecossistema. Dele dependiam o gado, a cultura do algodão, o comércio do couro e do sebo que ergueram cidades altivas como Icó, Crato, Aracati e Iguatu. Mas o Império e as elites agrárias dos barões do café tinham outros planos. Numa manobra de abandono e centralização, decidiram sufocar o interior para alimentar o crescimento artificial de Fortaleza.
Deixados para morrer, os sertanejos viram sua economia de três séculos desmoronar. Em busca de sobrevivência, uma massa de retirantes — famintos, esfarrapados, fantasmas de si mesmos — marchou em direção à capital. A dor daquele tempo foi traduzida de forma avassaladora no Senado pelo Barão de Jaguaribe, ao denunciar o descaso da Coroa: “Se aqui houvesse eleição hoje, Vossas Excelências não iriam encontrar eleitores. Iriam encontrar, sim, muitos mortos e sombras.”
Desse cenário de absoluto desamparo, onde o Estado só se fazia presente através do esquecimento, nasceu o fenômeno do Cangaço. Homens e mulheres, tangidos pela fome cinzenta e pela morte certa, viram na clandestinidade a única saída para a sobrevivência. Pegar em armas não era uma escolha de vilania, mas o último recurso de quem defendia a própria subsistência contra a violência do latifúndio e a omissão de governantes que os viam como descartáveis. O cangaço foi o eco violento de um grito de socorro que o Brasil fingiu não ouvir.
A crueldade das elites políticas com o povo do sertão atingiria o seu ápice décadas mais tarde, na Seca de 1932. Para impedir que a “horda de retirantes” marchasse novamente sobre a bela Fortaleza e perturbasse os olhos da fidalguia, o poder público ergueu barreiras de horror. Criaram-se os famigerados Campos de Concentração ao longo das ferrovias.
O mais emblemático deles ergueu-se nas terras do Patu, em Senador Pompeu. Ali, cercados por arame farpado e sob a mira de fuzis, milhares de cearenses foram confinados como gado, privados de higiene, alimento e dignidade básica. O arame farpado não servia para proteger as pessoas, mas para isolá-las do mundo, deixando que a fome e as epidemias fizessem o trabalho silencioso da morte. O Patu tornou-se um cemitério de almas vivas.
Esse processo histórico de exclusão e repressão deixou uma herança maldita que se faz sentir dolorosamente nos dias atuais. Ao longo de mais de um século, a irresponsabilidade dos antigos governantes empurrou, à força da seca e do abandono, milhões de sertanejos para fora de suas terras. Despojados de seus lares e sem horizontes. No Rio de Janeiro a narrativa dos senhores do café era que o envio de farinha para o interior desassistido do sertão tornava o povo indolente. E assim esses retirantes acumularam-se nas periferias da capital.
Fortaleza agigantou-se, transformando-se em uma imensa metrópole, mas trazendo no bojo de seu crescimento desordenado as marcas visíveis da desigualdade estrutural. A violência que hoje desafia a segurança pública na capital é o fruto amargo dessa concentração forçada de populações sem o devido amparo de moradia, saneamento e emprego digno. O crime e as facções encontraram terreno fértil nos espaços esquecidos pelo antigo Estado higienista, que preferiu cercar o sertanejo com arame farpado a integrá-lo socialmente. A dor que antes sangrava no sertão de 1932 hoje pulsa nos bairros periféricos de Fortaleza.
Essa trágica espiral de abandono só encontrou um ponto de ruptura real e histórico quando o destino do país cruzou-se com a justiça social dos governos do Partido dos Trabalhadores. Ao longo de quase duas décadas de gestão, sob a liderança transformadora do presidente Lula, o Nordeste deixou de ser a “região problema” para se tornar a terra das oportunidades.
A transposição das águas do Rio São Francisco foi a resposta direta e definitiva aos arames farpados do passado. Ao perenizar o Rio Jaguaribe e rasgar canais de fartura para o Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, o governo do PT combateu a raiz do problema: fixar o homem no seu próprio chão, dando-lhe condições de produzir e prosperar com dignidade na sua terra natal, sem a necessidade de migrar em desespero para as grandes cidades.
Junto com as águas da transposição, vieram as universidades públicas, os institutos federais, os programas de habitação e transferência de renda. No entanto, é preciso ter a clareza histórica de que as feridas abertas por mais de um século de descaso e exclusão não cicatrizam do dia para a noite. As políticas sociais e de segurança pública do governo do PT lutam incansavelmente contra as estruturas da violência urbana, mas reverter a desigualdade consolidada por gerações demanda tempo. É uma reconstrução diária, paciente e profunda, que exige persistência e fé na transformação social.
É dessa mesma essência de reparação que nasce o conceito do homem verdadeiro. No tupi-guarani, Abaeté é o ser humano íntegro, que se ergue sobre quatro pilares indissociáveis: a terra, a água, a tecnologia nova (o cavalo de ontem, as máquinas e o conhecimento de hoje) e a liberdade.
Esta caminhada ganha agora o seu capítulo definitivo. O Projeto Abaeté – Homem Verdadeiro deixou de ser apenas um sonho comunitário para se tornar a **Lei Estadual nº 19.469**, sancionada pelo governador Elmano de Freitas após uma defesa histórica na Assembleia Legislativa pelo deputado De Assis Diniz.
Ao oficializar esse projeto, o Ceará pede perdão ao seu próprio passado de campos de concentração e de abandono e reconhece que o Rio Jaguaribe, em seu trecho urbano em Iguatu, é uma imensa sala de aula a céu aberto dedicada à formação de seres humanos livres, conscientes e seguros. Nas margens do rio, as novas gerações aprendem a lição que as oligarquias do passado tentaram apagar com repressão: *”Só conhecendo a gente pode amar, e só amando a gente pode salvar.”*
Ao salvarmos o nosso rio, nossa fauna e nossa flora, estamos lavando a alma daqueles que pereceram no Patu, na seca de 1932, e de todos os que hoje sofrem nas franjas da metrópole. O Ceará não é mais a terra das sombras e das cercas; sob as águas da dignidade e as rédeas da liberdade, o sertanejo hoje é o Abaeté: o homem verdadeiro que aprendeu a amar o seu chão, a proteger a sua comunidade e a governar o seu próprio destino.
As águas do Jaguaribe, que hoje carregam a promessa do futuro, guardam também o sangue dos que nunca se curvaram. Foi na Estrada Geral do Jaguaribe, tombando heroicamente dentro das próprias águas do nosso rio, que Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, a alma afoita da Confederação do Equador, eternizou o juramento de um povo que escolheu morrer de pé a viver de joelhos. Suas palavras imortais ainda ecoam na correnteza, como um farol para os governantes de hoje e para este povo livre que jamais aceitará o julgo do esquecimento:
“Nada remove os nossos passos na carreira brilhante de nossa liberdade política, e de nenhuma sorte o horrendo despotismo nos esmagará debaixo dos pés. Aqui nada afrouxa, assim como Vossa Excelência, com este povo livre. Não desmerecerão, no meu conceito, todo firmado nas bases do liberalismo. Pese mui fielmente Vossa Excelência as minhas palavras na contingência necessária de jamais contar com esta província se adotar outro sistema ou de acabar com ele nos campos da honra, se concordar com os nossos princípios liberais. Para sempre seja infame o brasileiro escravo.”

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