Lei Áurea, campos de concentração, “bolsão” e a relação com a urbanização cearense

24/07/2026

 

 

Francinildo Lima é Advogado e Corretor de Imóveis

Na coluna passada falamos da relação entre a Lei Áurea (lei da abolição dos escravos), com o processo de urbanização das cidades. Além desse fenômeno existiram também em especial no Ceará campos de concentração no interior do estado e ainda o famoso “bolsão”, nome dado ao auxílio ofertado aos atingidos pela seca no sertão durante o período de seca.

Os campos principais instituídos foram nas cidades de Senador Pompeu, que chegou a concentrar mais de 15.000 pessoas e registrou mais de 1.000 mortes por doenças e fome, o campo da cidade de Crato (maior deles) que chegou a confinar mais de 60.000 pessoas, além de outros instalados nas cidades de Cariús, Ipu e Quixeramobim.

Em relação aos famosos ‘bolsões’, programa que cadastrava pessoas para receber comida em troca de trabalho no combate à seca como construção de açudes, entre outros, a principal finalidade era levar comida aos flagelados da seca e evitar que abandonasse as terras e se dirigissem aos grandes centros urbanos.

Mas o que os governos queriam era de fato ajudar as pessoas evitando morrerem de fome e sede? Os historiadores afirmam que não!

A preocupação, segundo alguns historiadores e estudiosos, era evitar o êxodo rural onde os sertanejos fugindo da seca se deslocavam para as grandes cidades, e assim pela falta de recursos se instalavam em grandes áreas em geral de empresários da época, passando a ocupar de forma irregular e ilegal o que não era uma ação bem recebida por aqueles detentores das terras urbanas sem uso.

Uma curiosidade é que nos campos de concentração a ideia “vendida” pelo governo seria a assistência e o cuidado com a saúde, o que os números de mortos denotam justamente o contrário. Outro ponto a ser destacado é que esses espaços foram instituídos justamente próximo às estações de trem da época, onde existem relatos das forças do governo retirarem pessoas dos trens que viajavam para a capital do estado fugindo da fome e sede, sendo assim obrigados a ficar nos campos para serem “ajudados”.

Os que conseguiam fugir da seca acabavam se deparando com uma sociedade excludente e preconceituosa da época, que os colocava na base da pirâmide social sem nenhuma possibilidade de ascender socialmente, o que os obrigava a prestarem serviços aos nobres e passaram a morar em áreas afastadas do centro urbano, geralmente ilegais ocasionando o surgimento das favelas, bairros periféricos e até cidades que atualmente fazem pare da Zona Metropolitana da capital cearense.

Por fim, a urbanização se mostra desta forma como um fenômeno social complexo, que sofre muitas interferências na sua consolidação até os dias atuais.

Bom fim de semana!!!

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