A saga da família Rodrigues é escrita com arte circense, teatro, música, literatura e comércio. O circo está na vida do casal Neuba e Heleno Rodrigues e não é de hoje. Foi Neuba quem levou Heleno (in memoriam) para o circo. Ela, filha de dono de circo, nasceu praticamente no picadeiro, cresceu aprendendo a arte embaixo das empanadas e carregou consigo durante muito tempo. Logo à frente o leitor vai descobrir que Heleno Rodrigues descobriu a paixão circense antes de conhecer a futura esposa e mãe de seus cinco rebentos.
No circo Neuba era múltipla, atuava em várias frentes, nos bastidores e dentro dos espetáculos. Fazia trapézio, participava do número mais arriscado, o ‘voo da morte’, equilibrista (equilibrando-se sobre um arame esticado a quatro ou cinco metros do chão e era uma bailarina brilhante). Numa época em que as ‘baianas’, nome dado às mulheres que dançavam no palco, enchiam os olhos do público.
O pai de Neuba, José Paula Filho, trabalhava com a família no circo. Ele era o palhaço ‘Vai e Volta’. O legado da arte circense acompanha a família Rodrigues até hoje, e já se vão quatro gerações. É como algo impregnado na pele ou na carga genética. Desaparece numa geração e renasce em outra.
Maria Benita, neta de Neuba e Heleno Rodrigues, e bisneta de José Paula Filho, tem no currículo o DNA artístico-cultural-circense da família. Formada em Comunicação e Relações Públicas, Benita coordena a Escola Sururu de Técnicas Circenses, projeto que funciona em Maceió-AL, onde mora e trabalha formando futuros artistas circenses. É um braço social mantido com recursos de editais públicos de incentivo que objetiva manter a tradição e evitar que a magia da arte circense se perca ou deixe de existir.
Rivelino Rodrigues, 55, filho de Neuba e Heleno é outro artista. Mais um membro da família que tem a arte circense na alma. Já teve até circo, daqueles que não tinham empanada, nem arquibancada, era um grupo de artistas que quando contratado se apresentava em escolas, festas de aniversário e outros eventos. Rivelino ainda trabalhou com o pai Heleno Rodrigues. Ele fazia o palhaço ‘Vai e Volta Neto’ e Heleno o ‘mestre de cena’ (artista que contracena com o palhaço). Mas antes de montar seu circo, trabalhou para outras companhias fazendo malabares, chicote, picadeiro e mágico.

Heleno
Heleno era um artista nato, um poeta popular, saudosa memória. Viveu intensamente até os 72 anos e nos deixou solenemente em 2009. Foi músico, tocava violão, compunha poemas e era artista circense, talvez a arte que ele mais amou. Uma de suas ações mais importantes foi a criação do Festival Iguatuense da Canção-FIC, evento que organizou na quadra de esportes Agenor Araújo e na noite do encerramento conseguiu trazer o compositor e cantor Evaldo Gouveia.
Era um homem de religiosidade inabalável, devoto de Senhora Santana e São João Crisóstomo, Santa Bernadete Soberous e Santa Matagarida Maria de Alacoque. Sempre que aconteciam festejos de padroeira, quermesse, cântico, oração, lá estava ele com sua presença forte e sua fé única. Se precisavam de um leiloeiro, lá estava ele sempre disponível, atencioso, educado e gentil. Sim, porque Heleno também era chamador de leilão, além disso foi cursilista e trabalhou como garçom.
Um hábito de Heleno Rodrigues nunca esquecido é que ele gostava de sentar na calçada à noite com o violão. Ficava rodeado das crianças dos vizinhos tocando violão, recitando versos e contando histórias. Era a diversão da noite para ele e para os pequenos. Pelas habilidades que tinha como artista, o filho Ruy não hesita em afirmar que foi um dos artistas mais completos de Iguatu.
Isso é fácil perceber, simplesmente passeando pelo bairro São Sebastião ouvindo moradores e pessoas que o conheceram e com ele conviveram. Cada pessoa guarda uma lembrança boa dele, um gesto de solidariedade, uma habilidade artística, difícil não ouvir que Heleno Rodrigues ‘Heleno dos Peixes’ era um gentleman.
A exemplo do sogro, também começou a sustentar a família vivendo da arte circense. Morava e acompanhava o circo. Porém, um dia resolveu sair. Foi quando já tinha três dos cinco filhos e percebeu que precisava colocar os filhos para estudar. É verdade que ele saiu do circo, mas o circo nunca saiu dele.
A história dele com a arte circense começou ainda na década de 1950, quando foi morar com os tios em Fortaleza com a ideia de estudar. Mas acabou não ficando na casa dos parentes e resolveu voltar para o interior, Iguatu. E foi neste caminho de volta que o circo o encontrou. Como artista natural que era e já habilidades para trabalhar com o público não foi difícil se adaptar. E numa temporada e outra, entre um circo e outro, quis o destino marcar o encontro dele com a futura esposa Neuba em Iguatu. Ela estava passando pela cidade no circo do pai, quando Heleno desembarcou vindo da aventura educacional interrompida na capital. Em Iguatu se conheceram, começaram a namorar e já saíram de Iguatu no circo. Em 1958 quando aconteceu a união matrimonial o circo estava no estado da Bahia. Do casamento de décadas com Neuba nasceram cinco filhos: Ruy, Rivelino, Rosana, Rejane e Ronaldo (in memoriam).
Heleno Rodrigues nunca foi pescador. Apesar de ter recebido o apelido carinhoso de ‘Heleno dos Peixes’, tornando-o conhecido e popular no bairro onde viveu (São Sebastião), e na cidade, ele apenas comercializava peixes. O filho Ruy Rodrigues revelou que Heleno, quando estava sem dinheiro no bolso, ficava mal humorado. “Quando a gente percebia papai mal humorado, então a gente já sabia que ele estava sem dinheiro”, contou. Então, comprar peixes para vender era uma tática comercial que ele usava e sempre funcionava. Sem nenhuma cerimônia, Heleno que já conhecia os pescadores e sabia onde tinha o produto, comprava, vendia e ganhava seu dinheirinho vendendo peixes.
Ruy
Ruy Rodrigues é outro herdeiro do talento cultural-artístico do pai e do avô. Não foi por acaso que se tornou artista popular da música, teatro, circo e poesia. Música popular e literatura sempre correram em suas veias. Atualmente morando em Maceió-AL e fazendo constantemente o caminho vinda e volta, de lá para o Ceará para rever familiares, principalmente os irmãos e a mãe Neuba, hoje com 85 anos, na capital alagoana ele é um agente cultural.
No Iguatu do final dos anos 70 e começo dos anos 80, Ruy foi um homem do teatro, que militou pelos palcos em Iguatu e outras cidades do Centro-Sul. Viajou até em caçamba de caminhão para estar no palco improvisado em apresentações por outras cidades da região. Foi no auge dos grupos de teatro amador Metamorfose, Espelho (Iguatu), grupo Vassouras (Icó) e Texac-Teatro Experimental de Acopiara.
No cordel memória ‘Feira do Balacobaco’ de autoria dele e outros cordelistas lançado neste ano de 2026, Ruy conta a trajetória de um grupo de jovens ávidos para expressar seus pensamentos e ideias revolucionárias de arte e cultura. ‘Feira do Balacobaco’ foi um texto coletivo transformado em espetáculo de teatro que percorreu as cidades da região em apresentações onde tinha público para assistir. Eita feira boa da peste/É feira do interior/ Aqui tudo é do Nordeste/Cada um tem seu Valor, Antoin, Maria, o roceiro/O homi do Cordel, violeiro/Do que vende ao comprador. (Estrofe do título ‘Um dia na Feira’) do cordel ‘Feira do Balacobaco’, de Ruy Rodrigues reeditado em 2026 na 2ª edição.
Ruy não consegue enumerar quantos cordéis já escreveu e lançou, porque são muitos. A produção de sua arte literária ficou mais intensa, a partir de 2015, ano em que se aposentou como bancário. O cordel na vida dele vem de casa com o pai Heleno Rodrigues, grande poeta popular. Como cordelista seu vínculo foi fortalecido em Maceió, quando foi filiado à Academia Alagoana de Literatura de Cordel, no ano de 2018, ocupando a cadeira nº 18, tendo como patrono Delarme Monteiro da Silva. Os trabalhos de Ruy podem ser vistos/lidos em vários endereços eletrônicos. ruy.r@ig.com.br, ruydoceara.blogspot.
A banda Icatu foi marcante na vida de Ruy Rodrigues e de outros três artistas, Benvenuto, Bêu Paulino e Carlos Eugênio. Como o próprio Ruy lembra “Foi uma história grande”, nasceu de uma ideia coletiva dos quatro amigos. Juntos levaram as apresentações para os quatro cantos de Iguatu: CRI, antiga AABB, Caça e Pesca e BNB. Com um repertório cultural e regional agradava a todos os públicos. Era o que eles amavam fazer, tocar e cantar. Na agenda de apresentações cabia a Semana Universitária, festejos da padroeira, Fenercsul, e outros eventos em escolas. Icatu era um grupo de cultura e o nome remetia à língua original dos índios tupis-guaranis que quer dizer ‘Água Boa’, o topônimo do significado de Iguatu.
Ruy é casado com Maria Nivalda Matias. O casal gerou três filhas, e todas receberam o primeiro nome de Maria. Maria Natália Matias Rodrigues, psicóloga, Maria Benita Matias Rodrigues, relações públicas, especialista em comunicação, e Maria Nativa Matias Rodrigues, também psicóloga. Três mulheres, Marias, três identidades, três DNAs dos Rodrigues. Quando fala da escolha dos nomes das filhas, Ruy é enfático na sua crença: “Maria é a nossa figura principal na fé e na simplicidade”.

Bairro São Sebastião
O bairro São Sebastião foi e continua sendo berço da família Rodrigues. A rua Ruy Barbosa é referência para eles. Ali nasceram e cresceram os filhos de Heleno e Neuba. Ruy foi criança no São Sebastião. Na época, um bairro pequeno, poucas casas, muito mato, onde o maior empreendimento era o matadouro municipal. Ali o gado era abatido à base de ‘chuncho’ e sangria, depois retirado o couro, a cabeça, os mocotós e as vísceras, e a carne levada para o mercado. O sangue que escorria ia direto para o Rio Jaguaribe. Não tinha saneamento, a energia era precária, o pavimento era de ‘chão batido’ e as ruas estreitas era o lastro das brincadeiras das crianças.

Os moradores do bairro lembram que em dia de levar boi para o matadouro era um espetáculo à parte. Os bois que por alguma razão não queriam entrar no ‘corredor’ invadiam as casas e deitavam no chão. Era como um pedido de socorro, mas havia o carrasco que era chamado para ensinar ao animal o caminho. Ruy lembra que as crianças podiam brincar na rua; futebol, bila, polícia e bandido, mas os pais não deixavam que eles entrassem no matadouro. Tinham muita curiosidade para saber o que havia lá dentro.
Para a família Rodrigues, ainda é tradição sentar na calçada, jogar um carteado e contar histórias. Ruy Rodrigues mora em Maceió, com a família, mas sempre que pode volta a Iguatu para visitar a mãe, hoje com 85 anos, os irmãos e rever os amigos.



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