
Um resgate histórico e emocional da efervescência cultural que marcou o Centro-Sul cearense no século passado ganhou as telas nesta semana. Na quarta-feira, 4, foi lançado oficialmente o documentário “Luzes em Cartaz”, dirigido pelos realizadores Giseli Santos e Isaque Souza. A exibição de estreia aconteceu no Campus Humberto Teixeira, reunindo estudantes, pesquisadores, antigos frequentadores das salas de projeção que outrora ditaram o ritmo social da cidade.
O filme é fruto de pesquisa minuciosa, estruturada a partir de relatos orais. Sem registros formais ou livros didáticos que dessem conta dessa cronologia, os diretores recorreram às memórias de espectadores da época, memorialistas locais como Chico de Paula, publicações relacionadas e ex-funcionários de estabelecimentos icônicos, a exemplo do Cine Alvorada e do Cine Sá. A narrativa traça a linha do tempo da sétima arte no município, desde as primeiras iniciativas na década de 1920, com o Cine Teatro Iguatu (posteriormente Cine Teatro Guarani), até o melancólico fechamento das últimas salas entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. “Contar essa história é impedir que o tempo apague a identidade cultural de Iguatu. O cinema de rua era o coração social da cidade”, destaca a diretora Giseli Santos.
Para além da nostalgia das bombonieres e das longas filas nas calçadas, “Luzes em Cartaz” joga luz sobre um dos períodos mais nebulosos da história brasileira: a Ditadura Militar. O filme revela o cotidiano da censura sob uma ótica estritamente regionalizada. Depoimentos detalham como policiais e agentes do Estado fiscalizavam as cabines ao lado dos projecionistas e como as fitas de rolo já desembarcavam no interior cearense retalhadas por cortes prévios impostos pelas distribuidoras oficiais. “A censura no interior tinha uma dinâmica muito particular. Queríamos mostrar como o autoritarismo afetava diretamente o lazer e a formação crítica do cidadão iguatuense, que muitas vezes assistia a obras completamente fragmentadas sem saber”, explica o diretor Isaque Souza.

Experiência imersiva e circulação
A sessão de lançamento, promovida em parceria com o Cine Alicerce, buscou transportar o público diretamente para o século XX. Logo na entrada do auditório, os presentes foram recepcionados com ingressos físicos personalizados, reproduzidos fielmente a partir dos bilhetes originais utilizados no antigo Cine Alvorada e uma exposição com cartazes originais de alguns filmes, livros e objetos que épocas passadas.
A relevância do resgate histórico foi amplamente elogiada durante o evento. Sara Benvenuto, coordenadora do projeto Cine Alicerce, destacou a importância fundamental do trabalho de preservação cultural desenvolvido pelo casal de cineastas. Segundo a coordenadora, iniciativas como essa são essenciais para manter viva a memória coletiva e valorizar a produção audiovisual feita no interior do estado.
Para o público a experiência foi reveladora. “A gente que é mais jovem não imagina que Iguatu já teve essa efervescência cultural nas ruas. Ver o ingresso antigo e ouvir os relatos dá uma sensação profunda de pertencimento”, relatou Carlê Rodrigues, contadora de história e mediadora de um projeto de cine clube da Biblioteca Municipal de Iguatu.
O projeto, que contou com o apoio de editais de fomento cultural, cumpre o papel de provocar o debate sobre o vazio deixado pela extinção dos cinemas de calçada e a importância da preservação do patrimônio histórico imaterial de Iguatu. Após o sucesso da estreia, a produção já confirmou que o documentário passará por exibições gratuitas em escolas públicas da rede estadual e em praças dos distritos da zona rural ao longo dos próximos meses, com debates abertos após as sessões.




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