Que seja a melhor idade

21/03/2020

Antônio Pereira de Oliveira

Estou beirando os noventa e dois anos de idade. As rugas no rosto, os cabelos brancos, a vista cansada e o andar lento, são marcas do tempo que surgiram logo que atingi a velhice, época que a muitos acabrunha e abate. A velhice, entretanto, é muito subjetiva e complexa, pois além de ser uma etapa natural, pela qual todos nós temos que passar, ela não representa um fim, mas o começo de uma nova fase da vida. Como a juventude, a velhice tem os seus encantos. As pessoas com quem cruzo nos meus dias tratam-me com certa admiração e cortesia, curvando-se em respeitosas mesuras. No ônibus lotado, alguém me sede o lugar. Nos bancos e repartições públicas, de filas intermináveis, tenho atendimento preferencial. 

A partir dos meus 70 anos, a fim de passar melhor, fui acomodando-me, resignadamente, ao peso da idade e ao quebrantamento da vitalidade. Quando na minha lenta caminhada pelos parques da cidade, alguém me ultrapassa, correndo, cheio de disposição e energia, eu cumprimento-o sorrindo e digo: já fui ligeirinho assim e, devagar, sigo em frente.

Nunca me alarmei com a ação vagarosa e limitante do tempo, muito menos com o desmonte lento do corpo, que naturalmente vem abaixo com a velhice. Nunca me preocupei, com o desgaste da fachada, tampouco em melhorar o meu “layout”. Tenho para mim que a figura do idoso cai-me bem. Se mudá-la, temo perder a minha identidade.

Não me causam mal-estar as rugas do meu rosto, são sulcos por onde correm as lágrimas pungentes vertidas nos momentos de dor e tristeza. Depois, além de não dispor de recursos para submeter-me a uma cirurgia plástica para eliminá-las, tenho para mim que o procedimento, além de não surtir o efeito de embelezamento esperado, pode desfigurar-me.  Por outro lado, gosto de meus cabelos brancos, não uso tingimentos para encobrir esse belo sinal argênteo da velhice e a vista cansada não representa um transtorno, que um par de lentes em uma armação vistosa, para auxiliá-la e proteger, não possa corrigir.

Por último, entendo que a lentidão dos movimentos, principalmente dos passos, é um sinal da natureza, que sugere moderação e cautela em tudo. Para que pressa, para que preocupação e estresse, se tenho consciência de que dei conta de tudo o que precisava ser feito, se falta pouco para o fim, se a morte pode estar na próxima esquina, ou curva da estrada. Nessa altura dos acontecimentos, visando acrescentar aos cuidados já adotados para o pleno gozo da velhice e sentir-me seguro, livre de tombos e quedas, ou outros acidentes tão comuns ao idoso, uma vez que não me adaptei ao uso da bengala, decidi sair sempre em companhia de minha filha, que mora ali ao lado e com quem divido preciosos momentos de minha vida. Na ocasião, dou-lhe o braço, ou apoio-me em seu   ombro e, tranquilo, prossigo a minha dura caminhada.

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