A ilha do tio-avô

14/02/2026

 

Todas as noites, às três em ponto, o mesmo sonho.

A casa antiga surgia envolta por uma névoa espessa, as paredes respirando como se fossem feitas de carne. No corredor, sob o retrato torto de ancestrais de olhos apagados, estava ele: tio-avô Anselmo, morto havia trinta anos, com o mesmo terno de linho amarrotado em que fora enterrado. Não falava. Apenas apontava. Sempre na mesma direção — para além da janela, para o mar.

Henrique acordava com o gosto de sal na boca.

A princípio, atribuiu tudo ao estresse. Professor de história, acostumado a narrar as obsessões dos mortos — guerras, impérios, heranças —, dizia a si mesmo que a mente também erguia seus próprios fantasmas. Mas o sonho persistia. E começou a mudar.

Numa das noites, Anselmo aproximou-se e, com uma voz que soava como vento passando por uma garrafa vazia, murmurou:

— A ilha.

Henrique nunca ouvira falar de ilha alguma na família. Anselmo fora marinheiro quando jovem, isso sim — um homem arredio, que voltara do mar com o olhar de quem deixara algo para trás. Morreu sem filhos, sem fortuna, sem explicações.

Depois da décima quarta noite consecutiva, Henrique encontrou, entre papéis antigos da família, uma carta nunca aberta. Estava endereçada a ele, embora escrita décadas antes de seu nascimento. No envelope amarelado, apenas: “Quando ele estiver pronto.”

Dentro, uma única frase, na caligrafia trêmula do tio-avô:

“Você saberá onde me encontrar.”

E, dobrado no fundo, um mapa rudimentar indicando uma pequena ilha fora das rotas comerciais, esquecida no oceano como uma vírgula numa frase interrompida.

Henrique não contou a ninguém. Disse aos colegas que tiraria férias. Embarcou num barco de pesca e, depois de dois dias de mar agitado, viu erguer-se no horizonte um pedaço de terra escura, cercado por rochedos como dentes.

A ilha não tinha nome.

Ao pisar na areia, sentiu o mesmo frio do sonho. O ar parecia pesado, saturado de uma expectativa antiga. Caminhou por vegetação baixa até encontrar as ruínas de uma construção — uma casa simples, de madeira apodrecida, inclinada pelo tempo.

No interior, havia um baú.

Henrique hesitou antes de abrir. Sentia-se ridículo — um homem adulto perseguindo instruções de um fantasma —, mas também inevitável, como se cada passo tivesse sido ensaiado muito antes de seu nascimento.

Dentro do baú, encontrou um diário.

As páginas revelavam o que a família jamais soubera: Anselmo não abandonara o mar por cansaço, mas por culpa. Em uma tempestade, desviara o curso do navio para investigar um boato sobre ouro escondido naquela ilha. O atraso custara vidas. O navio afundara dias depois, e ele fora um dos poucos sobreviventes. Desde então, vivera com a convicção de que sua ambição conduzira homens à morte.

Anos mais tarde, retornara sozinho à ilha. Construíra a pequena casa. Enterrara ali, segundo o diário, não tesouro algum, mas os objetos pessoais dos marinheiros mortos — bússolas, cartas, fotografias — numa tentativa tardia de lhes dar sepultura simbólica.

A última entrada dizia:

“Que alguém do meu sangue venha aqui um dia. Que saiba. Que me absolva ou me condene, mas que não me deixe vagando.”

Henrique fechou o diário com as mãos trêmulas.

Atrás da casa, encontrou uma clareira marcada por pedras. Cavou com esforço até atingir uma caixa de madeira apodrecida. Dentro, envoltos em tecido já quase pó, estavam os objetos descritos. Entre eles, uma fotografia de jovens marinheiros sorrindo, incluindo um Anselmo irreconhecível, leve.

O vento aumentou. Henrique sentiu uma presença atrás de si.

Não viu nada, mas ouviu — não com os ouvidos, mas com algo mais íntimo — a pergunta que nunca fora dita.

Ele pensou nos homens cujos nomes ninguém mais lembrava. Pensou na fragilidade das escolhas humanas. E, por fim, falou em voz alta, para o vazio:

— Eu sei o que você fez. E sei que carregou isso sozinho a vida inteira. Não posso apagar o passado. Mas você tentou reparar. Isso basta.

O vento cessou.

Naquela noite, dormiu na casa em ruínas. Sonhou novamente com o corredor e o retrato torto. Anselmo estava lá, mas não apontava para o mar. Apenas o observava. Havia algo diferente em seu semblante — não exatamente alegria, mas descanso.

Ao acordar, Henrique sentiu uma leveza inédita. Enterrou novamente os objetos, desta vez com cuidado, marcando o local com pedras firmes. Antes de partir, colocou sobre o túmulo improvisado a fotografia restaurada pelo sol.

No barco de volta, adormeceu sob o céu aberto.

Nunca mais sonhou com a casa.

Mas, às vezes, ao ouvir o som distante das ondas, tinha a impressão de que alguém, enfim em paz, agradecia em silêncio — não por ter sido absolvido, mas por ter sido lembrado.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

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