A sabedoria do tempo: a atualidade de Edmund Burke e Ludwig von Mises

08/11/2025

‘‘É um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar.’’ Edmund Burke

 

‘‘A humanidade precisa, antes de tudo, se libertar da submissão a slogans absurdos e voltar a confiar na sensatez da razão.’’ Ludwig von Mises

 

Em tempos em que o novo é celebrado como sinônimo de avanço, e o passado é frequentemente descartado como obsoleto, a leitura de autores conservadores como Edmund Burke e Ludwig von Mises surge como um ato de resistência intelectual — e, paradoxalmente, de renovação. Ambos, cada um em sua época e contexto, ensinaram que o progresso verdadeiro não nasce da ruptura cega, mas da continuidade refletida.

Burke, ao testemunhar as turbulências da Revolução Francesa no século XVIII, enxergou o que poucos quiseram ver: o perigo de destruir instituições antigas em nome de ideais abstratos. Seu pensamento, profundamente enraizado no respeito à tradição e à prudência, nos lembra que a sociedade é um organismo vivo, moldado por gerações, e não um experimento de laboratório. “Reformar para conservar” era seu lema — e nele está contida uma das mais belas sínteses do pensamento conservador: a reforma não como negação do passado, mas como aprimoramento paciente da herança que recebemos.

Ludwig von Mises, por sua vez, no século XX, ergueu-se como um dos maiores defensores da liberdade econômica diante da ascensão do socialismo e do intervencionismo estatal. Sua fé inabalável na razão individual e na espontaneidade do mercado era, antes de tudo, uma defesa da dignidade humana. Para Mises, cada indivíduo, ao agir livremente, é capaz de contribuir para a ordem social de modo mais eficiente do que qualquer plano centralizado. Em outras palavras, a liberdade — não o controle — é o alicerce da prosperidade e da responsabilidade moral.

Ler Burke e Mises hoje é reencontrar a serenidade em meio ao ruído. É compreender que há valor nas instituições, nas tradições e nas liberdades que herdamos, e que o papel do pensamento conservador não é o de impedir o novo, mas o de questionar se o novo vale, de fato, o preço daquilo que se perde. Num mundo em que tudo muda depressa, são vozes como as deles que nos lembram da importância de permanecer enraizados.

Assim, a leitura desses autores não é um retorno ao passado, mas um exercício de lucidez: entender que o verdadeiro progresso é aquele que respeita o tempo, a experiência e a liberdade humana — virtudes que Burke e Mises souberam defender com uma clareza que o presente ainda tem muito a aprender.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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