A trajetória de Sousa e o bar Kalabouço com ‘K’ desde 1979

17/10/2026

Para definir ‘calabouço’ voltemos ao período medieval para entender um lugar escondido nos subterrâneos dos castelos, ambiente, escuro, úmido, geralmente construído no subsolo, usado para manter isolados incomunicáveis, prisioneiros e outros desafetos. Palavra originária do latim com árabe: masmorra no sentido da palavra. Destino certo para prisioneiros, acusados de heresia e outros delitos.

Em Iguatu, Kalabouço, com ‘K’, tem outro significado. É lugar de conversa boa, música selecionada, petiscos, pratos da iguaria culinária para beliscar, literalmente um bar, cujo nome foi incorporado ao nome do proprietário. Desde 1979, Kalabouço é o local onde José de Souza Machado, 73, recebe os amigos.

 

Origem do nome

Bar Kalabouço é um pequeno prédio com um puxadinho na frente e repleto de adesivos com anúncios de bebidas, na Rua Antônio Mendonça. O prédio simples de poucos cômodos está construído num terreno que pertenceu ao patriarca da família, Pedro Raimundo da Silva. Na época, José Machado morava em Natal-RN, quando vinha para Iguatu dormia no local. Foi o amigo Tarciso que batizou o lugar, repleto de outros moradores, não tão ilustres, roedores, aranhas e suas teias, grilos e outros insetos. “Você dorme num calabouço, aquilo é um calabouço”, teria dito. José Machado achou esquisito, mas no fundo, no fundo gostou da ideia. Gostou tanto que tempos após fundou o ‘Bar Kalabouço’ e ainda incorporou o nome.

Natural de Iguatu, Kalabouço (Sousa) é filho do ex-torneiro mecânico da antiga CIDAO – Companhia Iguatuense de Algodão e Óleo, Pedro Raimundo da Silva de e Fidelina Alves da Silva, genitores de uma prole de 14 filhos. Nasceu numa vila de casas da antiga CIDAO. Construiu seu bar no terreno que era do pai. A ideia inicial era montar um cabaré, mas ficou o bar. Já tentou trocar o nome, mas teve que voltar. O povo não deixou. Mais do que uma resenha, bar Kalabouço com ‘K’ é uma simbologia da cultura, um arquivo vivo de Iguatu. É tão intenso que hoje, por onde passa sempre ouve a frase ‘Lá vai o Kalabouço’, o apelido pegou tanto que virou sobrenome.

Para um local tão especial e cheio de histórias, nada mais adequado do que fregueses ilustres e assíduos. Kalabouço conhece os frequentadores pelo nome e vai dizendo, um a um, Everton, Cauby, Uchôa Lima, Renato, Leandro, Eugênio. Os da velha guarda também Baltazar, Nonato Guedes, Assis, Valdemburgo, Toinho Balseiro, Ítalo Itinerante, Dr. Eduardo Gondim, dentre tantos outros. Já é a quarta geração frequentando o mesmo balcão. Todos são da turma. “Minha turma, meus kalaboucetes, pessoal jogado, pessoas muito boas, são especiais”, diz ele. Tão rústico e tão moderno, ao mesmo tempo, ao ponto de ter até QR Code para pagamento.

Música e petiscos

Falando carinhosamente sobre o lugar, para o Kalabouço Bar, “VIP aqui não é quem tem dinheiro, mas sim quem tem história”. Como o bar que surgiu na imensidão da área, ganhou traços urbanos, mas com a alma do antigo campo de futebol, a única diversão dos moradores da região.

O bar é mistura de tudo, mas não é para menos, no interior do estabelecimento, uma caricatura de Raul Seixas pendurada na parede resiste ao tempo. Kalabouço afirmou que tinha outras, inclusive uma dos Beatles, mas se perderam numa enchente. Fã de Raul, Roberto Carlos, Chico Buarque, Rolling Stones, Paulo Diniz, Caetano Veloso, Tom Zé, João Gilberto, Fagner e Chico César, Kalabouço revela seu bom gosto musical e lembra que o repertório dele também é o da freguesia. “Temos gostos parecidos para música, gosto de ouvir o que eles gostam também”, lembrou.

Como todo boteco que se preza, Kalabouço preserva seu cardápio à moda, da nossa comida raiz: feijão verde com nata e queijo, favada com mocotó, toucinho, tempero caseiro, mungunzá com bucho e torresmo.

Kalabouço está casado há 42 anos com Edna Gomes Pereira. É pai de nove filhos, oito vivos, mas no seu olhar um fio de tristeza, ao lembrar a morte do rebento mais velho, Pedro, o ‘Pepê’, há 12 anos.

 

Inventor e resiliente

Construtor e sobrevivente, Kalabouço é também inventor. Quando consertava aparelhos eletrônicos, criou seu próprio microscópio para enxergar os detalhes dos componentes eletrônicos. Adaptou um cabo com uma minicâmera, que acoplada ao celular projeta as imagens na tela do aparelho facilitando a visualização e identificação dos eventuais defeitos nos circuitos integrados da placa. Há sete anos, criou seu próprio sistema de energia solar para o bar. Antes a fatura da energia ultrapassava a cifra de R$ 300,00, mas depois que construiu o sistema e adaptou para energia solar conseguiu reduzir em 95% o valor da fatura de energia.

Kalabouço também é resiliência. Em 2017, enquanto tratava um problema de saúde na coluna e recebia auxílio-doença, fez uma tomografia lombar e descobriu um câncer de bexiga. Foi alertado pelo médico, buscou tratamento no ICC em Fortaleza, passou por quatro cirurgias e hoje está recuperado.

Do mato ao QR Code, da CIDAO ao Raul Seixas, o Kalabouço segue ali. Não como prisão medieval, mas como o lugar onde Iguatu se encontra e conta suas histórias.

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