Durante anos, as histórias existiram apenas na imaginação de Anna Ariane Araújo de Lavor. Personagens, diálogos, lugares e conflitos eram criados mentalmente, mas nunca chegavam ao papel. A mudança aconteceu no ano passado, quando acontecimentos inesperados na vida da autora despertaram a necessidade de transformar emoções em palavras.
Foi desse movimento que nasceu “As Coisas que Não Planejamos”, primeiro livro de ficção de Anna Lavor, nome escolhido por Ariane Araújo para assinar sua produção literária.
Advogada e servidora pública, Anna é graduada em Direito e Geografia e possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ambiente e Desenvolvimento. Sua trajetória até então estava fortemente ligada à pesquisa e à produção acadêmica. A ficção, porém, sempre esteve presente de alguma maneira.
“Na minha cabeça, eu criava personagens, imaginava cenas inteiras, diálogos, lugares, conflitos”, conta. Algumas dessas histórias permaneciam por tanto tempo na imaginação que a autora já conhecia detalhes sobre a personalidade dos personagens e sabia como eles reagiriam a determinadas situações.
O que faltava era colocar tudo no papel. No ano passado, diante de mudanças que não havia planejado – algumas positivas, outras frustrantes – Anna decidiu experimentar a escrita ficcional. Escolheu uma das histórias que carregava consigo e começou a desenvolvê-la.
“Resolvi tentar pegar alguma das histórias que eu tinha na cabeça e desenvolvê-la. A ideia era escrever e experimentar. Foi assim que nasceu ‘As Coisas que Não Planejamos’.”

Construção
A primeira versão do livro ficou pronta em apenas três meses. Segundo a autora, a escrita fluiu rapidamente porque a história já estava amadurecida em sua imaginação havia algum tempo. Depois de concluir o texto, Anna compartilhou a obra com alguns amigos próximos, leitores e apaixonados por literatura. Vieram sugestões, incentivos e, principalmente, o estímulo para que o livro fosse publicado.
A etapa seguinte foi mais demorada. Foram outros três meses dedicados a leituras, revisões, ajustes e correções.
Mas o maior obstáculo não estava no texto. “Meu maior desafio foi criar coragem para publicar”, revela. A demora acabou tendo um efeito curioso: enquanto amadurecia a decisão de lançar o primeiro livro, Anna escreveu um segundo. Uma história sobre recomeços e escolhas.
Em “As Coisas que Não Planejamos”, a história do casal protagonista não reproduz experiências pessoais da autora. Ainda assim, Anna reconhece que há muito de si na construção dos personagens. Personalidades, gostos e opiniões se aproximam dos seus, especialmente na maneira como os personagens enxergam o mundo, enfrentam situações e estabelecem relações.
A obra aborda temas como recomeços, perdas e escolhas e parte de uma reflexão sobre a imprevisibilidade da vida. Para Anna, nem sempre é possível controlar aquilo que acontece, mas existe a possibilidade de escolher como reagir aos acontecimentos.
O livro segue uma proposta de romance leve e, desde o lançamento, vem recebendo retorno positivo de leitores que se identificam com o estilo. A publicação também já despertou a atenção de canais literários nas redes sociais, que produziram ou anunciaram análises sobre a obra. Lançado em 14 de agosto, o livro está disponível em formato digital na Amazon e em versão física pelo site da editora.
Da academia para a ficção
A estreia literária representa também uma mudança de perspectiva para Anna. Depois de escrever livros acadêmicos e construir uma carreira dedicada à pesquisa, ela se permitiu experimentar uma linguagem diferente.
“O maior aprendizado foi me permitir escrever fora do universo acadêmico”, afirma. A escolha do nome Anna Lavor acompanha essa mudança. Embora seja conhecida no cotidiano como Ariane Araújo, ela adotou o novo nome para sua produção literária como uma espécie de uma identidade que lhe permite explorar emoções, memórias e inquietações de maneira mais livre.
Próximo
A estreia não deve ser um trabalho isolado. Anna já escreveu seu segundo livro, “2031”, que pretende publicar em breve. Desta vez, a autora deixa o romance leve e se aventura pela distopia, gênero que está entre seus favoritos. A história apresenta um movimento religioso que cresce até conquistar espaço político e passa a defender uma sociedade baseada em uma rígida ideia de “ordem natural”, com restrições principalmente aos direitos das mulheres.
Enquanto essas transformações avançam, um grupo de amigos começa a perceber os efeitos das mudanças em suas relações, famílias e escolhas. Para Anna, a força da distopia está justamente na capacidade de falar sobre o presente por meio de futuros imaginados. “Por trás de sociedades absurdas, governos autoritários e futuros que parecem exagerados, as distopias estão quase sempre falando sobre o presente”, explica. A ideia de “2031” surgiu justamente dessa inquietação: imaginar o que pode acontecer quando determinadas tendências da sociedade são levadas adiante.

Atravessando distâncias
Para uma autora de Iguatu, a possibilidade de publicar por meio das plataformas digitais também muda a relação com os leitores. Se antes alcançar pessoas de outras regiões do país parecia uma tarefa distante, hoje um livro pode atravessar fronteiras geográficas com poucos cliques.
Anna já teve uma experiência concreta disso. Uma leitora do interior de São Paulo, que ela não conhecia, entrou em contato para contar que havia começado a ler o livro e pretendia apresentá-lo ao grupo de leitura de sua cidade.
Para a autora, situações como essa mostram uma das forças da literatura: a capacidade de criar encontros entre pessoas que provavelmente jamais se conheceriam de outra forma. “A literatura consegue ultrapassar fronteiras, geográficas ou não, e criar encontros entre pessoas, culturas e histórias que provavelmente nunca aconteceriam de outra forma.”



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