
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Certa vez Aristóteles falou que “a música é de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma”.
Talvez, em tempos atuais, alguém ache um exagero do excelso filósofo.
Mas a verdade é que existem algumas raras canções que parecem descer do céu, como se o artista fosse apenas o mensageiro de algo que já existia no ar, aguardando o momento certo para se revelar.
Foi assim com Anunciação, uma das mais belas composições da música brasileira.
Conta Alceu Valença que caminhava pelas ladeiras de Olinda tocando uma flauta simples, presente de um admirador, quando uma melodia, ainda sem nome, parecia perseguir seus passos. Passou pelo Largo da Catedral da Sé, onde os sinos chamavam os fiéis para a oração. Ao chegar em casa, viu as roupas suas e da namorada quarando ao sol no varal. Uma vizinha, encantada, interrompeu seus afazeres para lhe dizer:
— Que melodia linda essa que você está tocando!
Naquele instante, sem que talvez percebesse, o poeta estava recolhendo os elementos que mais tarde se transformariam em versos imortais. Os sinos da catedral, as roupas no varal, o quintal banhado de sol, o mistério de uma espera amorosa. Tudo aquilo foi se acomodando na letra como peças de um mosaico afetivo. O próprio Alceu recorda que a música praticamente se escreveu sozinha, como se tivesse sido soprada pelo vento das ladeiras olindenses.
Lançada em 1983, no álbum Anjo Avesso, Anunciação ultrapassou o tempo. O que era uma canção sobre expectativa e encantamento tornou-se uma espécie de patrimônio para os brasileiros (que a minha professora de Direito Internacional Gilmara Benevides não leia isso rsrsrs).
A música foi cantada em campanhas pelas Diretas Já, transformou-se em hino de torcidas, emocionou atletas olímpicos, atravessou gerações e chegou aos ouvidos de jovens que sequer haviam nascido quando a música foi gravada.
Talvez seu segredo esteja justamente no mistério. Quem é esse ser que vem chegando? Um amor? Um filho? A liberdade? A democracia? A esperança? Alceu nunca aprisionou a canção a uma única interpretação. Como toda grande obra de arte, Anunciação pertence a quem a ouve.
Há algo de profundamente nordestino nessa composição. Não apenas pelos sinos de Olinda ou pelo quintal iluminado pelo sol. Mas pela capacidade de transformar o cotidiano em encantamento. O Nordeste de Alceu não é folclórico nem turístico. É um território mítico, onde cavalos atravessam a névoa das paixões, anjos sussurram ao ouvido e os sinais do amor podem ser escutados antes mesmo de serem vistos.
E falar de Anunciação é falar da grandeza de Alceu Valença.
Nascido em São Bento do Una, no agreste pernambucano, ele ajudou a redefinir os limites da Música Popular Brasileira. Misturou maracatu, coco, repente, rock, psicodelia e poesia sem jamais perder sua identidade. Criou uma obra que carrega a força telúrica do sertão e, ao mesmo tempo, dialoga com o mundo inteiro. É um dos raros artistas capazes de soar moderno e ancestral na mesma canção.
Não por acaso, a internet redescobre suas músicas continuamente. Novas gerações cantam seus versos como se tivessem sido escritos ontem. E talvez tenham sido. Porque as grandes canções não envelhecem; permanecem anunciando algo que ainda está por vir.
Mais de quarenta anos depois, os sinos continuam tocando, as roupas seguem quarando ao sol e nós, brasileiros, seguimos escutando os sinais.
Porque algumas músicas não terminam quando acabam; elas permanecem ecoando na memória coletiva, como uma promessa.
Como uma anunciação.
Antes de encerrar a nossa coluna de hoje, quero dividir a autoria dessa coluna com o meu amigo Eduardo Gondim, que me sugeriu o tema e, gentilmente, me cedeu algum material. Obrigado, meu amigo!
Bom fim de semana e até a próxima.

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