Após um ano em Iguatu, intercambista alemã volta para casa levando na bagagem a saudade e uma família brasileira

Blanka Giers encerra intercâmbio do Rotary após viver intensamente a cultura iguatuense; família anfitriã diz que jovem deixou de ser visitante para se tornar uma filha

04/07/2026

 

Por um ano, a rotina da estudante alemã Blanka Giers passou a ser bem diferente da que vivia em Görlitz, cidade localizada no extremo leste da Alemanha. Em vez dos rigorosos invernos europeus, ela encontrou o calor do sertão cearense. Em vez de uma língua desconhecida, aprendeu português rapidamente. E, acima de tudo, descobriu em Iguatu um lugar que agora chama de segunda casa.

Aos 17 anos, Blanka encerra nesta semana seu período de intercâmbio pelo programa de longo prazo do Rotary e se despede da cidade levando uma coleção de lembranças que, segundo ela, marcarão sua vida para sempre.

“Quando cheguei, esperava conhecer uma cultura completamente diferente, fazer muitos amigos e aprender português. Ao mesmo tempo, tinha medo da saudade da minha família e de não conseguir me adaptar”, relembra.

Os receios desapareceram logo nos primeiros meses. Matriculada na Escola Modelo e acolhida pela família de Débora e Bruno Sampaio, a jovem mergulhou na cultura brasileira. Conheceu Fortaleza, visitou os monólitos de Quixadá, participou de festas juninas, do Carnaval, experimentou a culinária regional e celebrou, pela primeira vez, um aniversário nos moldes brasileiros.

Na Alemanha, explica Débora, festas de aniversários como as realizadas no Brasil não fazem parte da tradição. Por isso, a família fez questão de organizar uma comemoração especial para a intercambista. “Ela viveu um aniversário tipicamente brasileiro. Queríamos que ela guardasse essa lembrança para sempre”, comenta.

A chegada de Blanka já era aguardada muito antes de seu desembarque em Iguatu. “Todos nós ficamos ansiosos pela chegada dela. A primeira pessoa da família que conheceu a Blanka foi a minha filha Edalva, ainda por fotografia. Ela nos mostrou a imagem e disse: ‘Mãe, essa é a intercambista que vai morar com a gente’. Naquele momento, já começamos a imaginar como seria essa convivência”, conta Débora.

Carinho

“Ela nos surpreendeu desde o primeiro dia. Sempre foi muito educada, sorridente, meiga e acolhedora. Existe aquele estereótipo de que os alemães são mais sérios, mas a Blanka mostrou exatamente o contrário. Ela conquistou toda a família com seu jeito leve e carinhoso”, afirma.

Segundo Débora, a adaptação foi tão natural que, em pouco tempo, Blanka deixou de ser vista como uma visitante. “Ela deixou de ser apenas uma intercambista. Tornou-se nossa filha alemã. Foi assim que passamos a chamá-la e foi exatamente assim que a sentimos durante todo esse tempo”, diz, emocionada.

O aprendizado aconteceu dos dois lados. “Enquanto ela aprendia sobre o Brasil, nós aprendíamos muito sobre a Alemanha. Conversávamos sobre a família dela, sobre as escolas, universidades, costumes e o modo de viver dos alemães. Foi uma troca cultural muito rica para todos nós”, contou.

Um dos aspectos que mais impressionaram a família foi a facilidade com que Blanka aprendeu português. “Em apenas três meses já conversávamos normalmente, sem precisar de tradutor. Foi algo que realmente nos surpreendeu”, recorda Débora.

Para Blanka, a necessidade de falar o idioma desde o primeiro dia acelerou o processo. “Foi mais fácil do que eu imaginava, porque quase ninguém falava inglês. Eu precisei falar português desde o começo e aprendi muito rápido. O maior desafio foi entender o sotaque cearense”, conta, entre risos.

Questionada sobre qual palavra brasileira levará consigo para a Alemanha, a resposta veio sem hesitação. “Saudade. Acho que é um sentimento muito difícil de traduzir para outras línguas. Agora entendo perfeitamente o significado dessa palavra”, disse.

Ao longo do intercâmbio, Blanka percebeu diferenças marcantes entre os dois países. A principal delas foi a maneira como os brasileiros demonstram afeto. “Aqui as pessoas abraçam, conversam, estão sempre próximas umas das outras. Na Alemanha também demonstramos carinho, mas de forma mais discreta. Achei muito bonito viver essa forma tão calorosa de demonstrar amor e amizade”, observa.

Descobertas

Ela também se encantou com a hospitalidade dos iguatuenses. “Aprendi que pequenos gestos podem fazer uma grande diferença. As pessoas daqui me fizeram sentir parte da comunidade desde o primeiro momento”, afirma.

Na culinária, não faltaram descobertas. “Gostei muito de baião, tapioca, pão de queijo e também de açaí”, revela.

Questionada sobre como definiria Iguatu para amigos e familiares na Alemanha, Blanka resume em poucas palavras. “É uma cidade acolhedora, calorosa, alegre, cheia de vida e inesquecível”, conta.

Enquanto a estudante retorna para casa, outra história também se completa. A filha de Débora e Bruno, Edalva Sampaio, que passou um ano em intercâmbio na cidade alemã de Stolzenau, também retorna nesta semana a Iguatu. Ex-presidente do Interact Club, ela tornou-se a segunda jovem da história do município a participar do programa de intercâmbio de longa duração do Rotary, reforçando a tradição da instituição em promover a integração entre culturas.

Antes de embarcar, Blanka deixa uma mensagem aos moradores que a acolheram durante os últimos doze meses. “Quero agradecer por todo o carinho, pelo apoio e pela amizade que recebi. Vocês fizeram este ano ser um dos melhores da minha vida. Iguatu sempre terá um lugar muito especial no meu coração”, disse.

Ao fim de um ano de convivência, a impressão é de que o intercâmbio ultrapassou o propósito de ensinar um novo idioma ou apresentar outra cultura. Em Iguatu, Blanka encontrou algo que dificilmente caberia em qualquer programa oficial: uma família, amizades verdadeiras e um sentimento que agora entende como poucos. A saudade.

Ela fez questão de dizer que a despedida não representa um adeus. “Tenho certeza de que vou voltar. Quero rever meus amigos, minha família brasileira e todos os lugares que fizeram parte da minha rotina. Iguatu agora faz parte da minha história”, afirmou.

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