‘‘Seremos incompletos sem as lembranças da infância que vivemos’’
Osman Freitas
Era um fim de tarde em um tal colégio Amélia Figueiredo de Lavor, em 1998. O Sol baixava e as folhas secas dançavam ordenadas por um modesto vento. Eu fechava o meu caderno – mais desenhado do que com tarefas feitas.
Pelos cobogós (que conhecíamos por ‘combobós’), luzes solares brilhantes, que poeticamente denunciavam o ‘‘alvorecer da tarde’’, nos indicava que logo, logo iríamos para casa. Enquanto isso, a professora Geralda, em posse de uma velha máquina fotográfica, tirou uma foto da turma e disse: ‘‘Essa é a melhor fase da vida de vocês; só que vocês saberão disso somente ‘lá na frente…’’’
Como o amigo leitor deva supor, é claro que não fazíamos ideia do que ela estava falando. A nossa pressa de viver nos negava a ciência do presente maravilhoso que estávamos vivendo. Éramos alheios do que éramos. Gostaríamos logo que o tempo passasse e pudéssemos, com isso, ficar até mais tarde na rua, beber cerveja, namorar… ser, em outras palavras ‘‘um adulto livre e independente.’’
Enquanto um aluno – o Ítalo – varria a sala, mocinhas conversavam amenidades sobre namoricos do colégio que ocorreram atrás da quadra de futebol. Outros alunos apenas trocavam tapas em suas toscas brincadeiras de moleque. E o sol ia enfraquecendo. Outra aluna apagava a lousa. O giz pulverizado dançava por entre as frestas dos raios do sol. Mais um dia de aula estava chegando ao fim.
Pela porta, vi um pássaro se aconchegando em um ninho que ficava entre imbricadas telhas da secretaria. Ele também sabia que o dia estava findando. Eu o desenhei na última folha do meu caderno – a última folha só tinha essa serventia para mim: desenhar. E estava escurecendo, finalmente. Tocou o sinal. Correria e gritos do alunato. Repreensão da professora, que ninguém ouviu.
‘‘Assim caminha a humanidade’’, do cantor Lulu Santos, anunciando a abertura da novela ‘‘Malhação’’ era assistida pela minha vó. Fui direto para o meu quarto, que era o último da casa. No teto dele, a única telha translúcida emitia o último resquício da nossa anã amarela. Hora de tomar banho, jantar e ir brincar na rua. Sim, um jovem de dezesseis anos, nos anos de 1990, tinha a mentalidade de uma criança de dez anos, mais ou menos.
O brilho do dia contemporâneo, a meu ver, não é o mesmo brilho vivido na saudosa década de 1990, amigo leitor. O saudosismo reside no fato de constatar que o tempo devorou a pureza, a inocência do que fomos naquela época. Do cotidiano, passando pelo lazer, estudos, paqueras e programas de tv, tudo se foi, substituído por tempos sem o brilho das luzes que se foram.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

0 comentários