
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Geraldo Azevedo postou uma foto em seu perfil do Instagram manifestando apoio a Lula e o mundo de alguns “fãs” desabou: “que decepção”, “deixando de seguir” e blá, blá, blá…
Perceba que há uma certa ironia no fato de alguém passar a vida inteira ouvindo Geraldo Azevedo e somente agora, diante de uma fotografia no Instagram, descobrir que o artista tem posição política.
Como se a música tivesse começado ontem.
Como se “Canção da Despedida”, por exemplo, fosse apenas uma bonita canção nordestina, desprovida de história. Como se Geraldo Azevedo tivesse surgido no mundo adulto ontem à tarde, com um celular na mão, para declarar apoio a Lula.
Não foi assim.
Geraldo Azevedo tem uma história política muito anterior às redes sociais. E talvez o mais curioso sejam os comentários de pessoas que dizem estar “decepcionadas” porque descobriram, somente agora, o pensamento político do cantor que escutam desde a infância.
Descobriram agora?
Geraldo Azevedo foi preso durante a ditadura militar. Foi torturado. Em 1969, passou cerca de 40 dias encarcerado; posteriormente, voltou a ser preso e sofreu novas sessões de tortura. Ele próprio já contou que chegou a ser obrigado a tocar violão diante dos torturadores. Você acredita mesmo que Geraldo Azevedo seguiria outro caminho, senão o da democracia, da liberdade?
Sua biografia oficial registra ainda sua participação em manifestações contra a censura e o ambiente de perseguição política que atingiu artistas brasileiros durante os chamados anos de chumbo.
Portanto, não é exatamente uma revelação.
O problema talvez seja outro: durante muito tempo, algumas pessoas ouviram a música sem procurar conhecer o homem. Guardaram as canções como memórias afetivas — e tudo bem. Música também é isso. É infância, estrada, namoro, família, saudade, São João, primeiro amor. É a voz que atravessa décadas e fica morando dentro do coração da gente.
Mas artista também tem história e história exige pesquisa.
É possível discordar politicamente de Geraldo Azevedo. É perfeitamente legítimo. Ninguém é obrigado a votar em quem ele apoia, concordar com suas posições ou sequer continuar o seguindo nas redes sociais, mas transformar a manifestação política em uma “descoberta” sobre quem ele é há décadas revela uma curiosa e preocupante incapacidade de olhar para trás.
É como descobrir que Chico Buarque tem posições políticas depois de ouvir suas músicas por cinquenta anos. Ou descobrir que Geraldo Vandré tinha alguma coisa a dizer sobre a ditadura depois de cantar “Pra não dizer que não falei de flores”.
A política brasileira não começou no Instagram e Geraldo Azevedo não começou sua história política quando publicou uma fotografia manifestando apoio a Lula.
Aliás, há uma espécie de paradoxo nessa reação.
Algumas pessoas dizem: “Eu acompanhava Geraldo desde criança. Suas músicas fazem parte das minhas memórias. Mas agora descobri quem ele é e estou decepcionado.”
Talvez a pergunta devesse ser outra: você descobriu quem ele é ou descobriu, finalmente, quem você é de verdade?
“Canção da Despedida”, composta por Geraldo Azevedo em parceria com Geraldo Vandré, carrega uma história que atravessa aquele período de censura e repressão. A própria biografia oficial de Geraldo Azevedo registra que a canção foi composta em 1968 e permaneceu censurada durante o regime militar, sendo gravada muito tempo depois.
E é exatamente por isso que a canção tem uma força que ultrapassa o tempo. Ela lembra que algumas despedidas não são apenas despedidas: são rupturas, exílios, silêncios impostos. São portas de celas que se fecham, artistas que continuam cantando quando o Estado prefere que eles se calem.
E há algo de profundamente contraditório em alguém se dizer apaixonado pela obra de um artista e, ao mesmo tempo, desconhecer a história que produziu aquela obra. A música pode ser memória afetiva, mas também é documento de seu tempo, e Geraldo Azevedo é um desses artistas cuja trajetória atravessa a música, a cultura e a própria história recente do Brasil.
Por isso, antes de deixar de seguir Geraldo Azevedo por causa de uma fotografia, talvez fosse interessante fazer algumas coisas muito simples: pesquisar, ler, ouvir, conhecer. Aí, depois, você pode discordar, mesmo porque discordar é um direito.
Mas descobrir a história de alguém apenas quando ela aparece no Instagram talvez diga menos sobre o artista do que sobre você mesmo e a sua própria preguiça de conhecê-lo.
E, no fim das contas, a “Canção da Despedida” continua dizendo aquilo que a história brasileira tantas vezes ensinou: há coisas que o tempo tenta apagar, mas a música insiste em nos lembrar.
Viva Geraldo Azevedo!
Bom fim de semana e até a próxima!

0 comentários