Cem anos de João Cabral de Melo Neto

11/01/2020

É claro que, em matéria de arte sobretudo, desaconselha-se o uso de rótulos do tipo “maior poeta”, “maior pintor”, “maior romancista”, posto que há, nisso, quase sempre, uma boa dose de subjetivação. Feita esta observação, contudo, contradigo-me intencionalmente para considerar Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, não necessariamente nesta ordem, os três maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos. Mas é sobre este último, por força do centenário de nascimento, comemorado na quinta-feira 9​, que gostaria de tecer aqui breves considerações.

Filho de uma família tradicional de Pernambuco, João Cabral de Melo Neto era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre, o que evidencia a vocação intelectual e artística do clã. A exemplo desses monstros da inteligência nordestina, cujas obras pontuam com merecido destaque, no Brasil, o que existe de mais significativo em suas áreas, João Cabral de Melo Neto notabilizou-se como um dos expoentes da poesia de língua portuguesa do século 20, ombreando com nomes de peso como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.

Mais que nesses, no entanto, um traço é evidente na poesia de João Cabral de Melo Neto: a ausência de um lirismo que sobressaia como pedra de toque do poema, o que não significa dizer que o poeta se coloque na contramão de todo e qualquer lirismo. Antes pelo contrário, se é notável a forma como trabalha o verso, lembrando um escultor cuja matéria-prima fosse a palavra, não menos notável é a força do sentimento que existe por trás de cada imagem, quase sempre se revelando de modo surpreendente e luminoso, bem na linha do que se pode descobrir no seu antológico O Cão Sem Plumas: “A cidade é passada pelo rio/como uma rua/é passada por um cachorro;/uma fruta por uma espada”. O que se vê, aqui, é a claridade do estilista em diálogo estreito com o homem sensível, mas de uma sensibilidade que não se permite piegas ou minimamente derramada. É que João Cabral de Melo Neto, como um Paul Valéry brasileiro, excedeu como artesão da palavra, tendo como poucos a fina compreensão de que poesia é, antes de tudo, forma, linguagem, escolha rigorosa do vocábulo em estado bruto, construção de discurso, sem incorrer no formalismo frio e inconsequente de certos estruturalismos em voga, no país e no mundo, quando produziu o que há de mais expressivo em sua obra.

Essa mesma “tensão” entre conteúdo e forma, sentimento e isenção (nunca impassibilidade!), diga-se em tempo, de que soube obter resultados memoráveis como o estilista extraordinário que foi, pode-se perceber em outras dimensões da poética cabralina: deve-se destacar, nesse sentido, a forma como soube lidar com a questão social sem jamais deslizar para a atitude meramente panfletária. Marxista, atento aos problemas do país, inconformado com a desigualdade social advinda de um modelo econômico perverso, João Cabral de Melo Neto fez da palavra uma arma de luta em favor dos mais pobres e desassistidos, os “Severinos” que povoam seu teatro, por exemplo. Aqui, ressalte-se, está uma outra aparente contradição: confessando-se inimigo da música, que identificava como barulho, produziu poemas extremamente musicais, como atesta o fato de Morte e Vida Severina ter sido irretocavelmente musicada por Chico Buarque de Hollanda. É que melodia e ritmo, sabe-se, na perspectiva da teoria literária, são coisas distintas. Aquela, prende-se à rima, ao uso seletivo de sonoridades, paronomásias, assonâncias e aliterações; este, ao fraseado, acentos e combinações de tônicas e átonas na construção do verso. 

Poeta da forma, antes de tudo, João Cabral de Melo Neto esteve sempre atento a essas questões, por isso a sua poesia é muito maior que qualquer subjetivação, figurando como um nome incontornável da literatura de língua portuguesa do século 20.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *