Era sexta-feira da paixão do ano de 1973, quando Gilberto Gil, alimentando-se do vinho da esperança, tem a ideia de escrever algo sobre o cálice do Sangue do Homem (que, talvez, representasse ali, naquele momento, o líquido vermelho à base uva que preenchera um copo de requeijão).
Embriagado pelo desejo de liberdade, ele tem outra ideia brilhante: a de ligar para Chico Buarque e lhe perguntar o que ele achava e se ele se interessaria em compor, com ele, uma canção sobre o tema.
Chico, que não é bobo e nem nada, aceita a parceria e o convida para se encontrarem no outro dia, Sábado de Aleluia, em seu apartamento, no Bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro.
No outro dia, num dia como se fosse hoje, lá estava Gil, naquela cobertura de onde se descortinava a Lagoa Rodrigo de Freitas (esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento na arquibancada para, a qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa).
Então Chico coloca uma mesinha na varanda e, para molhar as palavras, oferece uma bebida a Gil.
O aperitivo era Fernet, uma bebida alcoólica bastante amarga, de origem italiana (como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta. Mesmo calada a boca, resta o peito; silêncio na cidade não se escuta).
Depois das preliminares, então, Gil pergunta:
– E aí, a ideia do cálice?
Chico então responde:
– Veja bem, Gil, existe o cálice do sangue de Jesus e o cale-se do verbo calar que representa a dor e a opressão causadas ao povo pelo regime militar.

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Começaram-se os rascunhos e, entre um fernet e outro, a ideia ia se desenvolvendo. Como a letra se tornou bastante densa, a melodia não poderia deixar de ser marcante dentro de sua concepção libertadora.
Cálice, então, estava pronta para ser gravada.
Óbvio que não foi.
Gil e Chico, então, tentaram cantar Cálice no Festival Phono, no mesmo ano, em São Paulo, mas, lógico, não conseguiram. Os microfones foram, simplesmente, desligados pelos censores bem na hora da apresentação.
A música estava definitivamente censurada e só foi gravada cinco anos mais tarde, em 1978, num feat entre Chico Buarque e o inigualável Milton Nascimento.
Gil afirma que nunca conseguiu lidar muito bem, e ainda não consegue, com a canção devido ao sentimento de dor e tormento que a música carrega. Ele confessa, ainda, que nunca compreendeu de fato a figura do Pai dentro de uma transitoriedade entre a primeira pessoa da santíssima Trindade e o pai que assalta a individualidade do filho, no caso o Estado autoritário.
Com esse jogo de palavras poderoso, Cálice se tornou um dos maiores símbolos de resistência a favor da liberdade de expressão e contra a repressão imposta pela ditadura militar. Até hoje é lembrada como uma das principais obras da MPB nesse aspecto.
Você conhecia a verdadeira história que há por trás da canção Cálice?
Bom fim de semana e um ótimo Sábado de Aleluia!

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