(Des)ocupada

23/01/2026

 

 

Chegou, fechou a porta e, juntamente com ela, afastou qualquer possibilidade de ainda sair de sua casa naquela noite. Ao invés disso, achou por bem respeitar o que sentia no momento… Aliás, melhor dizendo, lidar com o que não sabia direito estar sentindo exatamente. Era um turbilhão de sensações. Havia tido dias melhores, é verdade – como da vez em que durante uma noite inteira sequer parecia já ter se encontrado com as suas dores de agora -, mas hoje, o que está posto é todo um mar de sentidos cíclicos e controversos.

Ligou o videocassete, vestiu seu pijama, calçou meias, tirou o batom e, juntamente com seu surrado bicho de pelúcia, comendo um doce qualquer, assistia a um romance clássico da década de oitenta. Divagava, vez ou outra, mesmo contra sua vontade, revivendo mentalmente sua vida em filme. Deixou o telefone que tocava, cair na caixa postal. Se fosse amiga, certamente ligaria outro dia. Se não fosse, que se danasse… Ninguém mais a interessava para conversar, posto que a vida solitária a condicionou a não precisar mais do que duas ou três (no máximo) amigas-irmãs.

Batem à porta. Procurando aparentar não haver ninguém na casa, ela colocou o televisor na função ‘’mudo’’. Quis chorar por, ali, naquela circunstância, sentir certa pena de si, da situação patética de sua falta de coragem para encarar o mundo; de retomar sua rotina – há dias esquecida -, deixada para sabe-se lá quando; procrastinando e, com isso, acumulando trabalhos, estudos, dívidas e toda sorte de compromissos (incluindo a visita ao psicólogo, que nunca chegou a ser realizada, mesmo tendo remarcado três ou quatro vezes).

Ao perceber que a pessoa que se fazia à porta havia desistido de chama-la, levantou-se da cama e resolveu ir apagar todas as luzes da casa para dar maior credibilidade à mentira do ‘’lar abandonado.’’ Depois disso, com o mínimo de volume possível à audição, vidrou os olhos na tela da TV, e o pensamento, no imbróglio que era a sua cabeça. Pensava estar louca (o que, a essa altura, foi um pensamento não sensato, pois um louco autêntico não chegaria a essa conclusão, portanto, louca mesmo, não estava – mas poderia haver uma tenuidade entre a mente sã e a demência completa).

Caiu em sono profundo, e, ao acordar, entendeu que a energia elétrica havia sofrido uma queda em seu bairro, pois a tv desligada e a geladeira em degelo fizeram-na deduzir esta obviedade. Agora, já empanturrada de chocolates e pirulitos, a sensação de uma suposta depressão já se fazia mais forte, acompanhada pela autocobrança estética e ressaca moral. Chamou a si mesma de burra e foi tomar banho (também sem ânimo).

Este é o único compartimento da casa onde ela fica nua e à vontade para chorar. Também é ali que ela guarda seus escritos em uma gaveta logo abaixo da pia, trancada por um daqueles pequenos cadeados dourados, protegendo, desse modo, seus desabafos dos olhos que sequer imaginam a sua existência. É no banheiro que ela revive, com maior intensidade, as histórias misturadas as estórias. Confunde-se, bebe e come mais chocolates… ali mesmo, debaixo do chuveiro, molhando as folhas, desfazendo-as tal qual a sua vida.

Gostaria de saber por onde ela anda… Agora que escrevo, bebo e fumo um velho charuto cor imbuia, de que tanto gostava. Notificaram mais um corpo, e não era o dela…

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