Do sertão dos ofendidos à esperança de um povo

“Não, eu não sou do lugar dos esquecidos, não sou da nação dos condenados, não sou do sertão dos ofendidos. Você sabe bem, conheço o meu lugar”.

31/10/2026

 

 

 

Kleyton Bandeira Cantor, compositor e pesquisador cultural

Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural

Belchior, em Conheço Meu Lugar, parecia compreender que reconhecer o próprio lugar no mundo é também um gesto de resistência. Não se trata apenas de saber de onde se vem, mas de compreender quem somos, quais são nossas raízes e, sobretudo, de qual lado da história queremos estar.

O Brasil acaba de atravessar mais um daqueles momentos em que a democracia foi chamada a demonstrar sua força. Em uma disputa que ultrapassou os limites de uma eleição convencional, o povo brasileiro fez sua escolha e garantiu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que escolher um presidente, uma parcela decisiva da população reafirmou que não aceita ser conduzida pelo medo, pelo ódio e pela intolerância.

E, mais uma vez, como em tantas, a poesia de Belchior encontra a política, fazendo com que a luz que ilumina o nosso caminho para o futuro permaneça coerente com as lutas e as vitórias sobre o obscurantismo do nosso passado.

“No presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

O povo brasileiro não é uma nação de esquecidos. Não é um povo condenado à barbárie, à submissão ou à indiferença. É um povo que trabalha, que sonha, que luta, que produz cultura e que, mesmo diante de tantas desigualdades, insiste em acreditar na possibilidade de um país mais justo. É um povo que entendeu pela própria dor, pelo próprio medo que “amar e mudar as coisas o interessa mais”.

Reconhecer o próprio lugar é não permitir que nada e nem ninguém nos convençam de que somos o que não somos, de que a desigualdade é natural ou de que amar é um ato de fraqueza. Muito pelo contrário: é compreender que ninguém se salva sozinho e que a dignidade humana não pode ser privilégio de alguns.

Vencemos as pessoas e as corporações mais poderosas do planeta.

Nem a Meta, nem Elon Musk, nem Zukerberg, nem o Pentágono, Nem a CIA, nem os algoritmos dos tecnooligarcas, nem todo o aparato econômico e a infraestrutura do poder internacional dos Estados Unidos foram capazes de suprimir a soberania do povo brasileiro, justamente porque hoje podemos olhar a vida de frente, bem nos seus olhos, e dizer: ‘vida, agora eu te conheço, mas calma, a tudo eu prefiro a minha alma”.

A vitória de Lula, nesse contexto, também representa a resistência de um projeto de sociedade que acredita na democracia, na inclusão social e na convivência entre diferentes. Em um mundo ameaçado pelo avanço da extrema direita, pelo nacionalismo excludente e pela transformação dos diferentes em inimigos, a solidariedade humana torna-se um valor político indispensável.

Não se trata de imaginar que o momento pelo qual o Brasil passou se tratou apenas de uma eleição convencional; essa percepção apequenaria uma revolução popular, voluntária e histórica que plantou nas terras férteis do planeta a semente da paz, do amor e da solidariedade. Trata-se, na verdade, de compreender que a democracia precisa ser defendida todos os dias, inclusive depois que as urnas encerram sua contagem.

O Brasil, ao fazer sua escolha, deu uma resposta importante ao mundo inteiro: não quer ser, e nem jamais será, o país do esquecimento, da condenação ou da ofensa. Quer ser uma nação capaz de reconhecer seu povo, respeitar suas diferenças e construir um futuro em que ninguém precise ser sacrificado para que poucos possam prosperar.

No fim das contas, conhecer o próprio lugar é saber que a história não pertence apenas aos poderosos. Ela também é escrita pelo povo, sobretudo quando ele decide não abrir mão do seu valor.

E como cantou Belchior, com a força de quem nunca se conformou em ser menos do que poderia ser: nós, brasileiros, conhecemos o nosso lugar.

Bom fim de semana e até a próxima!

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