
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Sabe aquele encontro que muda o rumo da história da vida de dois artistas? Não, muda o rumo da história da vida de milhões de pessoas? Não porque esse encontro altera a essência desses artistas, mas porque encontra a moldura perfeita para revelar aquilo que já existia em ambos. As páginas da história de Raimundo Fagner registram um desses encontros: a parceria com Michael Sullivan.
O disco Romance no Deserto, 14º da carreira de Fagner, chegou às lojas com uma primeira tiragem de duzentas mil cópias. Pouco tempo bastou para que desaparecesse das prateleiras. Vieram outras oitocentas mil. O disco ultrapassou a marca de um milhão de exemplares vendidos, embalado por canções que encontraram o público e por uma produção assinada pela dobradinha de Fagner e Michael Sullivan.
O curioso é que Sullivan, apesar do nome artístico estrangeiro, encontrado numa lista telefônica, era um artista Made in Brazil nascido em Recife, no estado do Pernambuco. Ladies and gentlemen, eu vos apresento Ivanildo de Souza Lima. O produtor recorda que recebeu o convite para trabalhar com Fagner como quem recebe um presente inesperado. Passou a noite sem dormir. Entre a alegria e a responsabilidade, sabia que estava diante de um artista que admirava profundamente. Disse que Fagner era um de seus maiores ídolos, destacando o compositor, o poeta das letras e o cantor que havia, segundo o próprio Sullivan “abalado a mim, o Brasil e o mundo”.
Mas a admiração não impediu o olhar sincero de quem divide o estúdio. Sullivan descreve um Fagner exigente, cheio de dúvidas, perfeccionista. Um artista que gravava uma mesma música centenas de vezes, cantava durante dias a mesma faixa e, mesmo depois de pronta, ainda queria voltar, e voltava, ao microfone para recomeçar. Para o produtor, era justamente da dúvida que nascia a certeza.
Absolutamente essa é a maior beleza dessa profícua parceria. Um compreendia o talento do outro sem tentar domesticá-lo. Sullivan organizava, acalmava e ajudava a encontrar soluções; Fagner insistia, voltava, perseguia o detalhe até acreditar que a canção havia encontrado sua forma definitiva.
A confiança construída em Romance no Deserto não terminou ali. Sullivan produziu também o próximo disco do Raimundo Fagner, O Quinze. Juntos, os dois discos alcançaram três milhões de cópias vendidas, repetindo uma combinação rara entre sensibilidade artística e enorme sucesso popular.
Certa vez o Chico Buarque falou que, no futebol, o Fagner era fominha, mas, no fim das contas, a verdade é que música e futebol têm algo em comum: quando dois craques jogam de tabelinha, o resultado é o gol.
Com Fagner e Michael Sullivan, foi exatamente assim. Um ofereceu o rigor de quem nunca se satisfazia; o outro, a escuta de quem sabia transformar inquietação em música.
E, com certeza, é essa a imagem mais bonita que essa parceria nos deixou. Enquanto Fagner e Michael Sullivan faziam a tabelinha nos estúdios — um lapidando a interpretação com rigor quase obsessivo, o outro transformando inquietação em direção musical — quem realmente gritou gol foi o Brasil. Milhões de brasileiros levaram para casa os discos Romance no Deserto e O Quinze, fizeram dessas canções parte de suas histórias e provaram que, quando dois craques dividem o mesmo campo, a vitória nunca pertence apenas a eles. Pertence ao povo que canta, se emociona e reconhece, na força da boa música, uma unidade genuína.
Bom fim de semana e até a próxima!

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