
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Já em clima de Copa do Mundo, lembrei-me de como gostava de ouvir Raimundo Fagner antes do início dos jogos da seleção nas copas passadas.
E talvez não exista combinação mais brasileira — e mais nordestina — do que música e futebol.
E por falar em Fagner e futebol, na Copa do Mundo de 1998, na França, essa mistura ganhou contornos quase cinematográficos. Fagner não estava convocado por Zagallo, mas estava lá, nos bastidores da Seleção Brasileira, como convidado da CBF. Enquanto os olhos do mundo miravam Ronaldo, Rivaldo e Bebeto, havia também quem perseguisse outro craque: o filho ilustre de Orós.
A Seleção estava hospedada num castelo nos arredores de Paris, cercada por jornalistas, celebridades e fãs de toda parte do planeta. E eis que surge uma das cenas mais deliciosamente brasileiras daquela Copa: enquanto Ronaldo Fenômeno conversava com os seus pais, Dona Sônia e Seu Nélio, ele percebeu que os pais não tiravam os olhos de um grupo onde estavam Zico – o Galinho, Dona Sandra – esposa de Zico – e Raimundo Fagner.
Sim, o roteiro foi esse mesmo.
Zico, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, estava ali. Cafu também. Tafarel também e tantos outros. Mas o brilho irresistível vinha do Ceará. Seu Nélio e dona Sônia queriam foto com Fagner. E ponto final.
Certamente porque o futebol cria heróis. Mas a música cria intimidade.
O craque a gente admira; o cantor a gente leva para dentro de casa, do carro, do escritório.
Enquanto Zico desfilava a elegância eterna dos camisas 10, Fagner carregava algo ainda mais poderoso: a capacidade de despertar memória afetiva. Afinal, não existe brasileiro que nunca tenha sofrido ouvindo “Borbulhas de Amor”, amado ouvindo “Deslizes”, dirigido sem rumo ao som de “Retrovisor” ou lembrado da própria vida se deleitando ao som de “Mucuripe”.
Do Ceará saíram vozes que moldaram a música brasileira, como Fagner, Belchior, Amelinha e tantos outros. Mas também saíram talentos que ajudaram a escrever páginas importantes do esporte nacional e mundial (vou citar apenas Clodoaldo, Sérgio Alves e o acopiarense Gêra). O Nordeste não exporta apenas jogadores ou artistas, exporta identidade e o Fagner é símbolo disso.
É o menino de Orós ocupando os corredores elegantes da Copa do Mundo sem perder o sotaque, sem abandonar a essência e sem trocar o violão do sertão pelos protocolos frios do estrelismo europeu. Enquanto Paris respirava futebol, ele mostrava que o Brasil também se explica pela música. E que música, meus amigos. Que música!
Naquela mesma viagem, o cantor ainda participou de peladas ao lado de craques históricos, virou corresponde improvisado do Jornal O Povo na Copa do Mundo e transitou entre os gigantes da bola como quem atravessa a própria sala de casa. Porque futebol e música têm um idioma em comum: a emoção.
É exatamente por isso que o brasileiro não consegue separar completamente essas duas paixões. O país que canta nas arquibancadas é o mesmo que acolhe o cantor em seu coração e o leva ao topo do mundo. E no meio dessa ponte cultural existe Fagner: um artista capaz de unir Orós e Paris, o sertão e a Copa do Mundo, a MPB e o futebol.
No fim das contas, aquela cena de 1998 talvez diga mais sobre o Brasil do que qualquer análise tática daquela Copa. Na final, Fagner já não se encontrava em Paris; estava em Madrid, na Espanha. Talvez por isso o penta não veio naquele ano.
Enfim, os pais de um dos maiores jogadores da história do futebol mundial o deixaram falando sozinho e foram atrás de um cantor cearense, nordestino.
E honestamente? O Brasil inteiro entende perfeitamente o motivo.
Bom fim de semana e até a próxima!

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