Imitação: da utilidade à imbecilidade

07/02/2026

 

 

‘‘O modismo tomou de conta das vidas, contemplado status fúteis que muitas vezes está escondido numa mascara aleatória que se diz viver feliz, porém esse mesmo status é que está levando as almas a sua própria impureza.’’-  Alexandre Lopes

 

Já nos primeiros meses de vida, pela observação, o bebê já começa a tentar, ainda que modestamente, emular alguns movimentos dos pais. Essa prática inerente do ser humano é fundamental para o desenvolvimento da coordenação motora, que se aperfeiçoa com a prática e a maturidade do neném.

Imitar também é um artifício utilizado para se ‘‘ganhar a vida’’. Muitos são os comediantes que imitam famosos, seja pelo gestual ou pela voz, caricaturando a situação e a pessoa da vez. Há mais de 2.000 anos, a pantomima já era praticada na Grécia como expressão artística.

Como sujeitos sociais, também imitamos os mais velhos, introjetando em nós os seus valores herdados pela geração precedente, levando-os adiante. Embora algumas virtudes ficaram, lamentavelmente, para traz, a base se mantém fortalecida.

Até aqui, amigo leitor, podemos perceber que há uma utilidade prática válida para se utilizar deste salutar comportamento: seja para se desenvolver, para viver profissionalmente disto ou para a manutenção dos valores familiares e sociais. Imitar, aqui, é uma arte em diferentes aspectos.

Entretanto, há também as imitações desprovidas de personalidade. Imitações ‘‘modinha’’ (no singular mesmo), digamos assim. Essas são vergonhosas, e nascem da falta de saber quem se é e do que realmente aprecia. Esses indivíduos entram na onda do momento; gostar ou não, isso não importa. O que vale é pertencer à patota, ao grupinho, pois a sensação de pertencimento vale mais do que o caráter individual.

Aqui acontece uma espécie de efeito borboleta dos imbecis: a pequena alteração, motivada por puro engajamento oco, vazio de sentido, gera o caos: uma horda de idiotas inconsequentes e despreparados vagando à esmo por aí. A imitação negativamente pitoresca engaja ainda mais néscios, mas, em contrapartida, repelem os que sabem o que querem e quem são, fazendo com que estes últimos fujam da dantesca cena.

Assim sendo, penso que um indivíduo, ao se propor a ser, por exemplo, um voraz leitor, um esportista dedicado ou seja lá qual atividade, que o faça não por modismo vazio; não para ser aceito em um grupo, mas por verdadeiro prazer de fazê-lo. Por ser essencialmente condizente com a sua alma, comas suas inclinações.  Autenticidade e dignidade, eis o caminho para a fidelidade consigo mesmo.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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