Uma pesquisa desenvolvida em Iguatu com trabalhadoras do SUS e estudantes universitárias da área da saúde reuniu relatos sobre violência institucional, assédio, discriminação e adoecimento emocional em ambientes de trabalho e formação acadêmica. O estudo, realizado dentro do PET Saúde Equidade, também resultou em reconhecimento nacional durante encontro promovido pelo Ministério da Saúde, em Brasília.
O levantamento ouviu profissionais da atenção primária, da rede de atenção psicossocial e estudantes dos cursos de Serviço Social, Enfermagem e Educação Física vinculados ao IFCE e à URCA. Ao todo, participaram 398 trabalhadoras da saúde e 128 estudantes na etapa de questionários. Nas rodas de conversa posteriores, participaram outras 94 profissionais e 22 universitárias.
Entre os relatos reunidos pela pesquisa aparecem episódios de machismo estrutural, assédio moral e sexual, racismo, etarismo e conflitos internos nas equipes de saúde. As participantes também apontaram sobrecarga de funções, desgaste físico e mental, além da ausência de canais considerados eficazes para denúncias e acolhimento.
No ambiente universitário, estudantes relataram episódios de assédio, preconceito racial, LGBTfobia e capacitismo. Também surgiram queixas sobre excesso de demandas acadêmicas, dificuldade de conciliar rotina pessoal e estudos e falta de suporte psicológico adequado nas instituições de ensino.
A pesquisa utilizou aplicação de questionários presenciais, observações em campo, rodas de conversa e levantamento de dados sobre os equipamentos de saúde do município. O material também resultou na criação de um banco de dados georreferenciado por meio da plataforma WebSIG.

O trabalho integrou as ações do PET Saúde Equidade de Iguatu, desenvolvido em parceria entre IFCE Iguatu, URCA Iguatu, Escola de Saúde Pública de Iguatu (ESPI) e Secretaria Municipal de Saúde. A coordenação geral foi conduzida pela assistente social Lili Holanda, da Educação Permanente em Saúde da ESPI.
A experiência intitulada “Pesquisa do Perfil das Trabalhadoras e Futuras Trabalhadoras do SUS em um município do Centro-Sul cearense: desigualdades, violências e interseccionalidades no território” foi uma das selecionadas para premiação nacional durante a Mostra de Experiências Exitosas do PET Saúde Equidade, realizada em Brasília no dia 13 de maio de 2026.
Uma das participantes da pesquisa foi a artesã Silvane Paulino, do CAPS. Ela relata que a experiência ajudou a ampliar o debate dentro dos próprios serviços de saúde. “Essas rodas e trilhas informativas fizeram muita gente enxergar situações que antes eram vistas como normais. A gente passou a conversar mais sobre respeito, saúde mental e sobre como acolher melhor quem trabalha e quem é atendido. O PET levou esse debate para dentro do serviço de saúde e isso abriu os olhos de muita gente”, afirmou.

Reflexão coletiva
A apresentação do trabalho no encontro nacional foi feita pela professora Moíza Medeiros, docente do curso de Serviço Social do IFCE Iguatu e tutora coordenadora de um dos Grupos de Aprendizagem Tutorial do programa. “A pesquisa mostrou uma realidade que muitas vezes permanece silenciada dentro dos espaços de trabalho e formação. O mais importante foi transformar esses relatos em reflexão coletiva e construção de estratégias de cuidado. O reconhecimento nacional fortalece esse processo e evidencia que experiências produzidas no interior também conseguem contribuir para o debate sobre saúde pública, gênero e direitos”, afirmou.
Segundo os organizadores, 270 experiências de todo o país foram aprovadas para publicação em e-book nacional. Dessas, apenas 27 — uma por estado e Distrito Federal — receberam premiação. O projeto desenvolvido em Iguatu foi o escolhido para representar o Ceará.
Outra experiência apresentada pelo grupo foi a “Trilha do Cuidar e Educação Permanente em Saúde: prevenção ao assédio, comunicação não-violenta e saúde mental”, também selecionada para integrar a publicação nacional.
A execução da pesquisa mobilizou cerca de 70 bolsistas do PET Saúde Equidade em Iguatu, entre estudantes, professores universitários e profissionais da rede pública de saúde que atuaram como preceptores do projeto.



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