Não existe criança de personalidade forte; existe criança que, muitas vezes, está crescendo sem os contornos necessários para se sentir segura. Crianças pequenas ainda não possuem maturidade para carregar decisões que pertencem aos adultos, como definir a rotina da casa, escolher todas as refeições ou determinar os compromissos da família.
É comum os pais perguntarem: “O que você quer vestir?” “Qual frutinha você quer?” “Para onde você quer ir: para a praça ou para o cinema?” Oferecer escolhas adequadas pode estimular a autonomia. O problema surge quando a criança passa a conduzir decisões que exigem maturidade e responsabilidade. Ela não se torna mais poderosa; pode ficar insegura, ansiosa e irritada diante de responsabilidades que não correspondem à sua etapa de desenvolvimento.
Para Fraiman (2019), essas manifestações estão relacionadas a transformações na sociedade brasileira, em que a criança passa a ocupar uma posição central na família. Expressões como “Meu filho é a coisa mais importante da minha vida” e “Pelo meu filho faço qualquer coisa” revelam o lugar de destaque que os filhos assumem na família contemporânea.
Amar os filhos não é o problema. O desafio surge quando o amor é confundido com a obrigação de evitar toda frustração, atender a todos os desejos e permitir que a criança determine o funcionamento da casa.
O papel dos pais não é vencer numa queda de braço, mas colocar cada um em seu lugar. A criança precisa ser ouvida e respeitada, mas não deve assumir responsabilidades que pertencem aos adultos. Autoridade não significa ausência de diálogo, assim como firmeza não é insensibilidade.
Quando necessário, diga: “Isso quem decide é o papai e a mamãe; você vai decidir quando for adulto.” Não argumente excessivamente. Explique o necessário, estabeleça os combinados e sustente as regras adequadas, mesmo diante do choro. Acolher a frustração não significa abandonar automaticamente os limites.
A criança aprende não apenas pelo que os pais dizem, mas também pelo que fazem. Se os adultos mudam todas as decisões diante da irritação, podem transmitir a mensagem de que o choro é suficiente para modificar as regras. Por isso, a coerência entre discurso e comportamento é fundamental.
Uma criança não perde nada quando um adulto assume o lugar de adulto, que é o lugar da decisão e da responsabilidade. Ela ganha segurança, orientação e a tranquilidade de ser conduzida.
A autonomia deve ser construída progressivamente, com escolhas adequadas à idade e orientação constante.
Quem sobe no lugar do adulto antes da hora não fica livre; fica perdido.

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