
Kleyton Bandeira
Cantor, compositor e pesquisador cultural
Essa semana, enquanto o tempo corria como quem não quer nada, deparei-me com um vídeo, na internet, em que o vereador eleito por Balneário Camboriú, Jair Renan, falava sobre o período da ditadura militar no Brasil. Com base em conversas com pessoas mais velhas, ele a descrevia como a melhor época de se viver no Brasil. Na mesma fala, também lançou críticas à ex-presidente Dilma Rousseff e àquilo que chamou de “sua galerinha”.
Confesso que, naquele instante, meu pensamento não se prendeu ao vídeo, mas voou — como quem busca um abrigo — para uma canção. Uma das mais belas da nossa música popular brasileira, interpretada com delicadeza pelo canto paraense Nilson Chaves e composta com sensibilidade por Celso Viáfora: “Não Vou Sair” é o nome da canção.
A música já nasce com um verso que parece carregar o peso de uma geração inteira: “a geração da gente não teve muita chance de se afirmar, de arrasar, de ser feliz”. E é curioso — ou talvez profundamente intencional — que não haja o “e” depois de “arrasar”. Como se o silêncio entre as palavras dissesse mais do que qualquer conectivo: as perdas foram tantas que nem cabem todas na frase.
Logo depois, a canção nos conduz por um caminho de despedidas: “sem nada pela frente pintou aquele lance de se mudar, de se mandar desse país”. E aí o coração aperta. Porque não se trata apenas de ir embora — trata-se de ser arrancado, aos poucos, da própria terra, da própria história. Muitos partiram. Não por escolha livre, mas por necessidade de sobreviver.
E então vem o refrão, como um sopro de poesia sobre a dor: “e aí você partiu pro Canadá, mas eu fiquei no já vou já. Pois quando tava me arrumando pra ir, bati com os olhos no luar, e a lua foi bater no mar, eu fui que fui ficando”. Há algo de profundamente humano nisso — esse instante em que a beleza do mundo, ainda que frágil, nos convence a permanecer. Ficar, nesse caso, não é acomodação; é coragem. É amor à terra, mesmo quando ela parece não nos amar de volta.
Muitos ficaram. E pagaram caro por isso. A história, que não esquece, registra os sonhos interrompidos, as vozes silenciadas, os corpos ausentes que nunca mais voltaram. Ainda assim, havia quem resistisse — com esperança, com arte, com uma fé quase teimosa no futuro.
E a própria canção, como quem sussurra ao ouvido do tempo, anuncia: “Os velhos de Brasília não podem ser eternos”. E não foram. Como tudo que se sustenta pela força e não pelo afeto, também aquilo passou.
Voltando ao discurso do vereador, não encontrei nele nada que aquecesse o espírito. Mas, curiosamente, algo me trouxe um certo alívio. Ele pôde dizer o que disse. Pôde falar, criticar, opinar. E isso, por si só, já diz muito. Porque houve um tempo em que palavras e opiniões custavam caro demais.
E talvez seja aí que a canção, mais uma vez, nos abraça. Porque aqueles que ficaram — aqueles que olharam o luar e decidiram permanecer — ajudaram a construir o direito de hoje. Entre eles, estavam também figuras como Dilma Rousseff e tantos outros que escolheram não partir. Que disseram, mesmo em silêncio: “não, nós não vamos sair. Aqui é o nosso lugar”.
Não sei, sinceramente, com quais velhinhos o vereador conversou. Mas eu sigo conversando com os meus — que vivem nos livros, nas canções, nas memórias que resistem ao tempo.
Porque a arte, no final das contas, é isso: uma velha amiga, dessas que nunca nos abandona. Está sempre ali, pronta para nos contar histórias, nos ensinar, nos emocionar e, sobretudo, nos lembrar de quem fomos, de quem somos e de quem ainda podemos ser.
Bom final de semana.

0 comentários