O atraso e o fim

22/11/2025

‘‘Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.’’ – Sêneca

 

Atrasado para o trabalho, o sol a pino, exausto e pensativo sobre os problemas da vida, eis que uma caminhonete impede a minha ultrapassagem em determinada rua. Olho para a parte superior, acima da porta, e leio ‘‘Perícia Forense’’.

Neste instante, imagino se ela, aquela carruagem mensageira da morte, estaria se dirigindo para alguma ocorrência que, claro, teria como ocupante, na volta, um defunto, no mínimo.  Pensei na aflição dos familiares ante uma tragédia naquela maldita hora…. não que em outro horário a situação fosse menos trágica e dolorosa. Uma desgraça é sempre uma desgraça, não importam o horário, clima e/ou lugar.

Apesar do exíguo tempo em que me mantive como retardatário daquela corrida imaginária em minha mente, tive um insight reconfortante enquanto sabedor de que nem eu nem nenhum dos meus amados entes queridos estariam como protagonistas daquela inesquecível desventura. Meu filho e minha mulher, felizmente, graças a Deus, estão bem. Minha mãe, também.

Talvez eu devesse encontrar esse automóvel mais vezes. Saber que ele dirige em função da morte, traz a reflexão necessária para que valorizemos mais a vida que temos, e dos que temos. Quando não sofremos, quando não há a dor, não valorizamos a sua ausência. A felicidade, a paz, a bonança só são valorizadas na presença da dor e, claro, da morte.

Com o fim da divagação existencialista, pus-me a focar no trabalho, afinal, sem ele, o homem também está, em alguma medida, morto. O primeiro serviço do dia? Um ‘santinho’ para uma missa de um ano de falecimento de um senhor que, como você e eu, amigo leitor, tinha os seus entes queridos, uma vida repleta de sabores e dissabores.

A vida de um homem é como estar em correnteza: a certeza é a de se deixar levar, ante o cansaço, por ela, afogando-se, no fim, no desembocado mar do esquecimento. Sim, me pego em outro devaneio existencialista. Um amigo, que também sofre dessas inquietações, disse: ‘‘Cara, somos ‘doentes.’’’ Talvez ele esteja certo. Mas, o que resta é respeitarmos as nossas esquisitices e sabermos conviver com elas.

Enquanto trabalho, escuto a canção ‘‘Cigarro’’, do maranhense Zeca Baleiro. Recomendo… Dá vontade de beber. Coisa que farei ao fim do dia.

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

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