O Café e o Tempo

13/12/2025

          Professora Me. Elma Melo

            Era uma manhã comum, daquelas que parecem se arrastar, com o sol ainda tímido, tentando se impor entre as nuvens. Na pequena cozinha de um pequeno apartamento, o cheiro do café fresco preenchia o ar, enquanto a torradeira trabalhava arduamente, estalando e estalando como se estivesse tentando contar uma história. Maria, uma mulher de meia-idade, debruçava-se na janela com olhar e pensamentos perdidos parecia não se encontrar neste mundo de tanta ligeireza quando queria nos contar algo, mas com palavras advindas de sua voz não conseguia expressar tamanha profundidade como seria na escrita.

Em meio aquele turbilhão que se formava lá fora, pois o dia havia começado, veio-lhe de repente a lembrança de que há anos sonhara em ser escritora, porém sempre imaginou que seria um simples devaneio  o seu caderninho com os escritos permanecia no fundo de sua bolsa e aquelas linhas preciosas haviam sido preenchidas por obrigações do seu trabalho.  Prazos e tabelas ocuparam aqueles espaços tão preciosos que seriam destinados ao seu sonho de ser escritora. Maria, aquela mulher de quarenta e poucos anos, olhava atenta aquele café escorrer, enquanto nos seus devaneios tolos pensava em como ficariam os seus versos naquele pequeno caderninho.

E num instante, diante daquele barulho caótico do trânsito de uma metrópole, ela então refletiu em como o tempo é efêmero e nos atravessa, em como tudo é fugaz e, sem expectativa do que poderia vir a seguir, sentou-se a uma pequena mesa escura com um jarro desgastado junto de uma toalha envelhecida a saborear a goles largos e compassados aquele café com um pedaço de pão envelhecido.  Observava atentamente aquela fumaça saindo daquele líquido lembrou-se de sua avó, do quão era especial o gosto do café que ela fazia para os seus netos e de como os pequenos momentos guardados em sua memória eram aconchegantes. Enquanto mexia o líquido na xícara vinham a sua mente lembranças do sorriso tímido e meigo de sua avozinha.

Naquele breve espaço de tempo vieram como uma enxurrada todas as lembranças e solicitudes de quando ainda era uma menina que guardava sua inocência na esperança de ser adulta e de que o tempo não decorresse de forma demasiadamente acelerada. Assim, decididamente tomou coragem e a partir daquele dia tomar um café apreciando o sabor não seria sua única opção, mas agora ela iria reservar um espaço de tempo para o seu antigo sonho, escrever com a alma e o coração. E, determinada, inebriada por aquele sol forte que adentrava as frestas da janela naquela cozinha solitária pegou o seu caderninho do fundo da bolsa e começou a escrever sua poesia inquieta e recôndita com a qual sonhara desde jovem.

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